Devaneios de uma saudade


Numa tarde escaldante de dezembro,

 Duas  horas e meia após o almoço

Olhando sua janela eu só me lembro

Teu lábio incendiando meu pescoço.

 

Noite anterior,  escada do teu prédio

                                      Senti o sabor de um  beijo alucinante

 Tu, loira tão linda, fizeste de amante

A mim, pobre rapaz de padrão médio.

 

Para, escondidos, beijarmos na boca,

Nós dois sempre encontramos nossos meios,

Tal qual anteontem, que coisa louca...

Minha língua passeou por teus seios!

 

E agora nesta tarde não te vejo

Mas meu corpo jovem arde em desejo

Eu te quero me entregar de verdade

Por isso aqui escrevo entregue à saudade


Confissões da loucura


Ao abrir os olhos, suspirei
E pus-me a caminhar
Entre as árvores
Sem destino,
Sem nome,
Sem lenço.

Ajoelho-me perante um rio
E lá estão meus risos
E mágoas
Meu presente
Meu passado
Meu futuro.

Ah, se eu pudesse
Mergulhar neste rio novamente!
Para ao menos te olhar nos olhos
Tão negros e pequeninos
Para ao menos tocar-lhe os cabelos
Tão ruivos,
Tão macios,
Tão teus!

Mas eu não posso, meu bem!
Fomos separados
Pela mais bela das imortais
Separados pelo silêncio amargo
Separados, minha amada...
Pelas minhas próprias mãos

Trêmulo, derramo uma lágrima...
Uma lágrima de dor,
Cortando-me os olhos,
Uma lágrima de arrependimento,
Esmagando-me ao chão
Talvez a minha última lágrima.

Mas agora não há mais o que temer...
O destino me espera
Detrás de uma porta,
Na outra margem do rio.

Posso até sentir as chamas
Fervendo-me a pele...

Você e que exército?


Venha, venha,
Você acha que me enlouquece?
Venha, venha,
Você e esse exército!
Você e seus amiguinhos!

Venha, venha,
Sagrado Império Romano,
Venha se você acha,
Venha se você acha,
Que você pode conosco,
Que você pode conosco.

Você e esse exército?
Você e seus amiguinhos?
Você se esquece tão fácil...

Cavalgamos esta noite
Cavalos fantasmas.

por Thomas Yorke (Radiohead)

Pequeno homem sendo apagado: Quarta parte (final)

Sentiu uma tremenda dor, que se alastrou por todo o corpo. Rolou pelo chão, gemendo.
- Não se preocupe, ficaremos bem. – cochichou olhando para o corpo do amigo
A sensação era semelhante à de vários choques elétricos sucessivos. Sentia também como se várias agulhas já tivessem sido injetadas em seu corpo antes. Suspirou.
Começou a ouvir vozes: “Calma, meu filho, vai dar tudo certo.” “Tenha paciência, senhor, ele vai ficar bem”.
- O que será isto? – sentiu-se incomodado – Parem de gritar! Quem está aí?
O rapaz tentava levantar-se em vão. Todas as imagens em sua volta começavam a sumir aos poucos. “O que está havendo”? Perguntava-se. Fixando seu olhar no casal Luan chorou. E num piscar de olhos tudo em sua volta sumiu de vez. Luan, naquela noite, nunca havia se sentido tão bem quanto naquele instante; mas por pouco tempo.
“Vamos, Juan! Acorde, meu filho!”
- Pai? É você quem está aí? – perguntou o rapaz surpreso
Não se ouviu resposta. O silêncio e a escuridão predominavam. E foi rompido com um choque elétrico contra seu peito e um grito. Tremeu. Sua respiração cessou. Lentamente seus olhos se abriram. Ele estava agora deitado sob a cama de um hospital, ligado a vários aparelhos. Vários médicos. Seu corpo, dolorido. Seus olhos, cheios de lágrimas. Seu pai, aos prantos. Abraçando-lhe a mão contra o peito, vestido com um simples casaco vermelho.
- Juan, saiba que teu pai aqui te ama.
- Senhor, ele perdeu muito sangue, por isso acho que...
Lentamente as palavras embaralhavam-se na mente do filho, não conseguia mais respirar e seu coração batia cada vez mais devagar...
Uma mulher o observava em silêncio, como se estivessem ali apenas eles dois.
- Quem és tu, bela dama, que no vago do silêncio me observa, e fitando-me com teu olhar me paralisa, fazendo-me transpirar e viajar pelo mais distante infinito? – disse-lhe Juan cerrando os olhos cansados, movendo apenas os lábios...

***
4º dia
Juan acorda, ainda naquela cama. Todas as dores, a agonia, a tristeza... Todas elas sumiram com o vento. Levantou-se. Já não havia mais aparelhos que o impedissem de fazê-lo. Caminhou observando tudo em sua volta. Ninguém por perto.
- A quem procuras, amigo? – soou uma voz
- Quem está aí?
- A chave da fechadura da tua porta... Sou a tua face enquanto dormes... Somos amigos até a morte.
- Luan? – admirou-se ao olhar para trás.
- E qualquer caminho que tomes, estarei lá, abrindo o teu crânio, estarei lá, subindo pelas paredes.
Sim, era Luan. Sorrindo, Juan aproximou-se e o abraçou. Abraçou forte aquele que sempre esteve ao seu lado. Seu melhor amigo. Seu eterno amigo: Luan, seu subconsciente.
E juntos retiraram-se.
Sem pressa.
Sem dor.
Sem medo...
Agora sim. Tudo corria bem. Já não se podia mais provar do fruto proibido. Sim, aquela maçã: o pecado. O amor!
Não havia mais nada a temer nem a duvidar.
***
Chovia forte. Eram cerca de quatro e meia da tarde. Ruth caminhava pacientemente segurando seu guarda-chuva vermelho. Ao passar por um poste comoveu-se. Um homem estava ali. Trajava um simples casaco vermelho, pés descalços, calça jeans. Tremia com o frio.
- Senhor, o que fazes aí?
- Juan... Juan...
- Venha comigo, eu posso ajudá-lo...
- Por que, Senhor? Por que você fez isso? - falava ele baixinho
Ruth, sentindo muita pena, imediatamente o socorreu. Pegou-lhe a mão. Resolveu levá-lo ao hospital mais próximo. A moça o conduzia. O pobre indivíduo apenas cochichava.
- Juan... Juan... Te amo... Meu filho.

Pequeno homem sendo apagado: Terceira parte

3º dia
Terça-feira pela madrugada. Juan já não estava no mesmo lugar. Acordou pensativo. Tinha vontade de voltar para casa. Abraçar seu pai. Fixar seu olhar mais uma vez no retrato de sua falecida mãe. Beijar novamente Clarissa... Ah, como ele desejava tudo isso! Era angustiante não poder fazer nada do que desejava naquele exato momento. Como se sentia infeliz! Se naquele instante ele tivesse uma arma em mãos, certamente cometeria uma loucura. Sentado no chão arenoso observou por alguns minutos as poucas estrelas contidas naquele céu sem lua daquela madrugada mórbida. Ouviu-se um ruído? O que seria? Não seria um ser humano, pensou. Resolveu continuar ali sentado, imóvel. Porém os ruídos o deixava inquieto. Levantou-se e pegou uma pedra. Sentiu-se mais seguro. O barulho se aproximava, deixando o jovem mais nervoso. Juan logo distinguiu: Era um rugido... Semelhante ao de um predador bastante faminto. E agora?
Resolveu o rapaz permanecer imóvel, esperando a aparição do animal.
- Apareça, maldito! Você me quer? Então venha, porra, e acabe comigo. Eu estou esperando!
Inesperadamente um lobo atacou-lhe pelas costas, mordendo-lhe o ombro. Juan berrou alto. Esforçou-se para alcançar a pedra que ele derrubara ao ser surpreendido. Conseguiu. O rapaz, usando a rocha, golpeou o canino na face. Juan conseguiu erguer-se e se afastar. Cambaleou. Sentia-se fraco, uma presa fácil. Olhou fixamente nos olhos daquele ser, que estava extremamente esfomeado. Nem se podia imaginar o quanto. Sua saliva escorria por sua mandíbula, descendo à ponta da língua, gotejando até chegar ao chão. Extremamente trêmulo, o jovem afastou-se vagarosamente. Atirou a pedra; esta acertou em cheio o focinho do lobo, que latiu de dor. Juan resolveu correr. O morro onde ele estava era extenso e não era muito alto. Porém possuía poucas árvores, deixando o lobo em vantagem. Correu. E o lobo atrás dele. A cada latido ouvido Juan acelerava mais ainda. Não havia tempo nem para pensar. Ao perceber que estava sozinho Juan parou de correr. Desta vez ele escutou um berro. Não era de um animal qualquer. Era de um ser humano. Um ser humano familiar para Juan.
- Clarissa?!
- Socorro!
Sim, era ela. A moça que Juan mais amou em toda a sua vida. Onde está ela? O que está acontecendo a ela? Novamente Juan tornou a correr, à procura de sua amada.
- Juan! Onde está você?
O grito de desespero. O coração do jovem estava a mil! Pôs-se ele a chorar. Mesmo sabendo que esta não era a melhor solução.
- Clarissa!
Ele percorria o morro por todos os cantos, mas nenhum sinal visível de Clarissa. Já não sabia mais o que fazer.
- Juan! Calma! Vai dar tudo certo. – soou uma voz pacífica
Luan estava atrás dele. Em pé sobre uma rocha.
- Desgraçado! - berrou Juan batendo as mãos fechadas no peito do amigo. – Onde está Clarissa?
- Como você não sabe? – gritou furioso
- Juan. Vai dar tudo certo. Confia em mim. A única coisa que posso fazer por você é orientá-lo.
- Juan! Me ajude! Eles vão me matar!
- Vamos, garoto! O grito da moça vem daquele lado. Corra! – disse Luan apontando para o seu nordeste.
Luan estava certo. À medida que Juan corria naquele sentido, os berros eram ouvidos em intensidade maior. E finalmente a moça foi encontrada. Quase nua. Três lobos a atacavam. Porém, desta vez foi diferente. Eram lobos mais ferozes, mais vorazes. Pareciam estar endiabrados! Mas não havia tempo. Logo arrancou um galho de uma das poucas árvores contidas naquela região e avançou sem medo. Os três animais perceberam a presença do inimigo e resolveram atacá-lo. Lentamente eles aproximavam-se. Olhos avermelhados, pêlo cinzento, dentes afiados. Entretanto, antes que pudesse fazer algo, Juan sentiu-se mal, zonzo. Mais uma vez. Tudo parecia girar. A ferida do seu braço doía mais. Caiu de joelhos e respirou fundo. Olhou para os lados. E lá estava Luan novamente. Sentado sobre uma pedra, observando tudo pacificamente.
- Calma, meu amigo. Vai dar tudo certo.
- Desgraçado! Por que fica aí, sentado, olhando nossa desgraça? – chorou mais uma vez.
- O que eu podia ter feito já fiz, meu caro. Antes mesmo de você me encontrar... Frente a frente.
Pobre Juan. Não estava entendendo mais nada. Nada parecia fazer sentido. Fechou os olhos. Ao abri-los notou algo extremamente estranho. Os lobos eram agora seres humanos! Assustado, arrastou-se para trás.
- Desistiu de brigar, valentão? – disse um dos três homens
- Por que vocês fizeram isso a ela? – soluçou Juan
- A culpa é de vocês! Nada estaria assim se vocês tivessem feito apenas o que pedimos. – disse o primeiro homem
- Onde estão o Pedro e a Ana?
- Um dia você vai reencontrá-los, mas não nesse mundo.
Essa frase ecoou na mente do pobre rapaz. Parecia um pesadelo. Estava difícil distinguir o real do imaginário. Tudo aquilo parecia estar realmente acontecendo. Mas se fosse tudo imaginação? Um terrível pesadelo, quem sabe...
O segundo homem olhou nos olhos de Clarissa, que trêmula observava tudo. Aproximou-se da moça, puxou-a pelo braço e depois a empurrou, esta que caiu próxima ao amado. E disse:
- Vamos, doçura, dê adeus a ele. Daremos a vocês o direito do último beijo.
Lentamente os lábios se aproximaram, e simultaneamente as lágrimas escorriam em suas faces. Mas este não era o fim que Juan desejava. Havia ele avistado uma pedra de tamanho e massa suficiente para ao menos desmaiar um deles, caso acertasse-o na cabeça. E assim foi feito. Enquanto o casal se beijava, Juan rapidamente esticou o braço, apanhou a pedra e a lançou, acertando em cheio a testa do primeiro homem, que caiu desmaiado no chão.
- Ingrato! Permitimo-lhes o último beijo e você agradece desta forma. Fim de papo. Comece a rezar. Você será o primeiro.
- Não! Por favor, deixe-o vivo! Por tudo que é mais sagrado! – implorou Clarissa
- Cale-se! – gritou o segundo homem dando-lhe um tapa a face – Isso é o que vocês recebem por mexerem com a gente. – e retirou do bolso um revólver
- Deixem eles aí. O choque emocional em que eles se encontram não vai permitir que eles lembrem dos nossos rostos. Já fizemos demais. – disse o terceiro homem
- Se não quiser assistir à cena vá embora. Aguarde-nos no carro roubado.
E assim foi feito. O terceiro homem retirou-se sem olhar para trás, levando consigo o homem que fora atingido por Juan.
- Será que aquele simples Celta preto valia tanto? Pensei que quatro vidas não tinham preço, mas já que vocês pediram... Antes de matá-los quero que saibam meu nome: Francisco. Vosso carrasco. À pedido de meu amigo Marcelo deixarei a mocinha viva.
Logo ele apertou o gatilho, ecoando o estrondoso barulho dentre os morros.
- Clarissa, por que comeste do fruto proibido? – lamentava Luan, que apenas observava.
- Clarissa! Não! Por que você fez isso, meu amor! Por que não me deixou morrer?
A moça se colocara na frente do amado. O tiro acertou em cheio seu seio esquerdo, bem próximo ao coração.
- Maldição! Garota estúpida! Eu ia te deixar viva! Perdoe-me, meu caro, mas cumprirei o prometido. Adeus. Sangrarás até a morte!
E foi dado o segundo tiro, que acerto no ombro de Juan. Imediatamente Francisco retirou-se correndo em direção ao carro roubado, no qual ele partiu velozmente.
- Agora somos um só, na mais eterna paz... Te amo, Clarissa.
A doce jovem respondeu-lhe com um sorriso. Juan deitou-se e pôs a cabeça da amada sobre seu peito. E fecharam os olhos.
Luan entristecido aproximou-se, atirou-lhes uma rosa vermelha e partiu. Dentre os dois morros Luan, Clarissa, Juan, a rosa... E uma maçã escarlate, nas mãos de Clarissa.
Luan caminhou alguns metros... E caiu...

***

...

Pequeno homem sendo apagado: Segunda parte

... eram eles fisicamente idênticos.
- Minha nossa! Como isso é possível?
- Mas por que a surpresa, companheiro? Parece até que não nos conhecemos.
Juan, boquiaberto, aproximou-se de Luan e tocou-lhe a face. Não acreditava que alguém pudesse ser idêntico a ele.
- Tenho que ir, amigo.
- Eu vou com você. Eu não quero ficar aqui sozinho.
- Não, companheiro, você não pode ir comigo.
- Por quê?
Antes que fosse respondido Juan sentiu uma leve tontura, que foi se intensificando aos poucos, impossibilitando-o de permanecer de pé.
- O que você fez? – gemeu o rapaz, que caiu nos braços de Luan.
- Calma, vai ficar tudo bem.
- Pro... me... te...?
Juan desmaiou nos braços de Luan, que o beijou no rosto e o deixou cair no chão.
- Prometo. – e saiu

***

2º dia
Segunda pela manhã. Juan abriu os olhos lentamente. Não estava mais no hospital. Nem em casa. Estava deitado sobre uma grama verde. Ficou pensando no porquê de ele estar ali naquele momento. Ao teu lado se encontrava um belo violão. Sorriu. Pegou carinhosamente o instrumento e pôs-se a cantar baixinho suaves canções. Lembrou-se de Clarissa, sua amada. Onde ela estaria naquele instante? Após alguns minutos Juan lembrou-se do dia anterior e de tudo o que acontecera neste. Olhou para os lados e não encontrou nenhum sinal de vida humano. Levantou-se. Iniciou uma lenta caminhada, sem rumo. Enquanto caminhava olhou para o chão e notou que havia sobre este, ao lado de uma formosa árvore, um esqueleto de peixe. Estranhou. Andou mais um pouco e avistou um riacho. Sorriu. Amava a natureza. Quando estava em contato com ela sentia-se extremamente confortável. Sentiu o cheiro de terra molhada e admirou as borboletas que voavam dentre as árvores. Espreguiçou-se. Naquele momento todos os seus problemas desapareceram! Já fazia certo tempo que ele havia se sentido tão bem como naquele instante. Tirou a camisa vagarosamente pensando em mergulhar. Ajoelhou-se sobre a margem e observou seu reflexo na água límpida. Levantou-se e terminou de desabotoar sua camisa. Abaixou-se e retirou também sapatos e meias. O ar fresco refrescava-lhe corpo e alma. Fechou os olhos e abriu os braços sentindo-se completamente livre. Por alguns instantes Juan viajou a outro mundo! Estava naquele lugar apenas fisicamente. Abriu os olhos, respirou fundo e pulou na água fresca. Ergueu os braços e gritou alto, como nunca havia gritado antes. Mergulhou um mergulho demorado, e começou a nadar admirando o que havia naquele riacho, todas aquelas maravilhas marinhas.
- Purificando a mente, meu caro? – Luan o observava caminhando sobre a margem
Juan não demonstrou felicidade alguma ao ver quem estava ali. Saiu da água e olhou seriamente para Luan.
- Por que você vive a me perseguir, infeliz?
- Nossa! Como és mal-educado. Deveria me agradecer por estares aqui. Sei que precisamos purificar nossa mente às vezes. Por isso lhe trouxe aqui.
- Problema o seu. Nunca lhe pedi nada. E porque deixou aqui?
- Você que pediu, ora.
- Cala-se seu cínico! – berrou Juan – Qual a finalidade desta sua brincadeirinha? Quem é você? O que é você?
- Eu sou quem você quiser que eu seja.
Juan suspirou, vestiu suas roupas e saiu, ignorando a presença do outro indivíduo.
- Para onde vais, criatura?
Sem olhar para trás Juan continuou caminhando.
Passou entre árvores, avistou de longe uma bela macieira. Direcionou-se a esta. Ela era realmente belíssima!
Luan, que vagarosamente se aproximava, gritou:
- Afasta-te daí, Juan! Não comeis do fruto proibido!
Sem dar ouvidos a ele, Juan tentou alcançar a maçã mais vermelha daquela árvore.
- Eu posso te ajudar? – ouviu-se uma voz feminina
À primeira vista o jovem não acreditou no que via. Era Clarissa, sua amada. Estava ali, lado a lado com ele. Ao olhar nos olhos dela seus olhos se encheram de lágrimas. Lentamente olhos e lábios se aproximavam.
- Clarissa, te esperei tanto tempo.
- Mas agora somos um, na paz mais eterna. Beije-me, Juan.
E os dois se calaram no ardor daquele beijo. Após o ósculo Clarissa ofereceu ao amado aquela maçã vermelha, encostando-o nos lábios o fruto. Ele então, mordeu este a olhando nos olhos. Pouco depois Juan sentiu-se mais fraco.
- O que foi, meu bem? – preocupou-se Clarissa
- Está tudo bem.
As pernas do rapaz começaram a estremecer, impossibilitando-o de permanecer em pé. Logo o jovem caiu.
- Juan, diga-me! O que está havendo? Oh céus!
- Clarissa, você me ama?
- Sim! Lógico que eu te amo!
- Então coma deste fruto e venha comigo.
- Mas para onde?
- Para longe daqui.
Ligeiramente Clarissa mordeu o fruto e segurou a mão do seu amor. Ajoelhada ela o beijou novamente. Após sentir-se tonta deitou-se com a cabeça sobre o peito dele. E juntos descansaram debaixo da formosa macieira.
Luan abanou a cabeça ao olhar para o casal. Atirou uma rosa vermelha no peito dele e saiu... Sem rumo.

***

3º dia...

Pequeno homem sendo apagado: Primeira parte

Chovia forte. Eram cerca das cinco horas da tarde. A jovem Ruth caminhava pacientemente dividindo o espaço de seu guarda-chuva vermelho com um homem que caminhava lentamente. Andavam em direção ao hospital mais próximo. A moça não se incomodava com a lama que sujava seus pés, nem com os carros que a banhavam, apenas caminhava conduzindo o velho homem, que também não demonstrava impaciência para com a garoa.
Enfim chegaram ao hospital. A jovem limpou seus pés sujos no tapete e pediu para o homem aguardá-la, pois ela iria chamar alguém que pudesse ajudá-los. Conversou por alguns minutos com a recepcionista e esta pediu que Ruth fosse um pouco paciente, pois em breve ela seria atendida.
Não se passaram dez minutos e um médico aguardava-os frente à sua sala. Lentamente o velho homem levantou-se e foi vagarosamente conduzido ao médico.
- Boa tarde, senhorita, sou o Dr. Márcio, em que posso ajudá-la?
- Boa tarde. Encontrei esse homem na rua, sentado frente a um poste. Ele não me parece bem, por isso o trouxe aqui.
- Hum... Qual o seu nome, senhor?
O homem aparentava ter cinqüenta anos, trajava um casaco vermelho e rasgado, calça jeans e estava de pés descalços. Este não deu atenção a Márcio.
- Senhor, olhe para mim, e responda ao menos qual é o seu nome. – tentou novamente o médico.
Tinha ele um olhar centrado no vago. Seus lábios pareciam dizer alguma coisa, mas não se podia ouvir sua voz. O clínico abaixou-se um pouco, aproximando-se mais do misterioso indivíduo.
- Juan... Juan.
- Juan?! Este é seu nome? – perguntou Márcio
- Juan. – repetiu ele
- O que houve contigo?
- Juan... Juan...
Ruth, que observava tudo calada, de braços cruzados e encostada na parede pergunta o que se pode fazer por aquele cidadão e o doutor balança a cabeça:
- Nada... – lamentou Márcio – Leve-o a um hospital da rede pública, lá os médicos saberão como cuidar dele, levando-o para onde for necessário.
- Essa é a única solução, doutor?
- Sim. – afirmou Márcio vestindo seu jaleco branco. – Eu posso levá-lo até lá, se quiser.
- Sério? – sorriu a moça. – Posso ir com você?
- À vontade.
Chegando à recepção Márcio alegou não demorar.
Juntos, Ruth e o homem saíram do hospital, entrando em um Palio vermelho, no qual foram levados por Márcio ao Hospital São Marcos, o melhor hospital público daquela cidade.


***

Sábado à noite. São 20h. O despertador toca, trazendo o jovem Juan do mundo dos sonhos ao mundo real. Ao olhar as horas rapidamente ele se alerta. Tem um compromisso e não costuma se atrasar. Bastante apressado ele toma banho, veste-se e perfuma-se com uma das suas colônias preferidas. Penteou seus cabelos negros os quais trata com bastante cuidado. Estava pronto. Ouve-se uma buzina. Era Pedro, seu melhor amigo, que o esperava em seu Celta preto. Estavam animados para curtir à noite.
Não demoraram a chegar. A boate estava lotada. As namoradas deles esperavam-nos em pé frente à casa de shows. Cada um abraçou sua amada, dando um beijo demorado. Em seguida os quatro curtiam na pista de dança. Beberam, dançaram, beijaram. Tudo que a maioria dos jovens modernos mais gosta de fazer.
Já era tarde da madrugada. Vieram todos juntos no carro de Pedro. Juan dormiu no caminho.

***

1º dia
Domingo à tarde. Juan acorda em um hospital. Assusta-se. Levantou-se e olhou em volta. O silêncio reinava no local. Caminhou vagarosamente entre as camas. Olhando para os lados procurava uma porta. Facilmente encontrou, porém surpreendeu-se: a porta não abria.
- Desse jeito você não sairá daqui tão cedo. – ouviu-se uma voz
Apavorado, o jovem Juan observou cuidadosamente tudo em sua volta. Não avistava ninguém por perto.
- Quem está aí?
- Está com medo, Juan?
Ao ouvir seu nome, o jovem sentiu um breve frio na barriga. Quem é esse sujeito? Seja quem for este alguém já lhe causou medo. Procurou por perto uma tesoura ou qualquer coisa que o ajudasse a se defender.
- Hahaha... Calma, meu companheiro, não te farei mal algum.
- Então porque se esconde?
- Tenho mania de me esconder. E você nunca percebe isso.
- Como assim? Você nem me conhece.
- Eu te conheço melhor do que você imagina.
- Tá brincando... – ri Juan ainda com medo – Vamos, pára de brincar e mostra a cara.
Ouve-se de longe passos lentamente se aproximando. Juan espera pacientemente a aparição do misterioso rapaz, que não tarda a mostrar-se. O ruído da maçaneta chamou a atenção de Juan, que vidrou os olhos na porta. Lentamente a porta se abria, e o ranger desta incomodava o rapaz, que estava impaciente.
- Pronto, Juan, aqui estou eu.
- Hum... Sabes meu nome. Diga-me o teu.
- Luan. Nomes parecidos, não?
Cada passo a frente dado pelo rapaz de nome agora revelado era causa de mais tremor das mãos de Juan, que suava cada vez mais. A luz das lâmpadas iluminava bem lentamente o corpo de Luan, que ao ter sua aparência finalmente revelada, surpreendeu imensamente o outro rapaz...