David caiu para trás, com o susto.
A outra criança sorriu. Poderia ter gargalhado, ou até permanecer impassível. Mas ela sorriu.
O pequenino estranhou o ato e encarou seu reflexo. Havia ali algo estranho. Não diria estranho. Algo diferente. Deparou-se com uma linda garotinha de cabelos dourados. Seus cachinhos deleitavam-se sobre os ombros. Seus olhos brilhavam de tão verdes. Trajava um vestidinho branco, com bordadinhos cor-de-rosa. Admirado, David estendeu a mão e tocou o espelho.
O sorriso da garotinha era puramente encantador.
Com os dedinhos entreabertos, David tentava acariciar-lhe os cachinhos, tocar-lhe a pele rosadinha. Mas era impossível. Talvez não.
A pequenina, sorridente, enfiou a mãozinha delicada em seu bolso. E dali retirou um pequeno ioiô. Douradinho, douradinho. Uma combinação perfeita com seus meigos cachinhos. Há quem dissesse que era feito de ouro maciço, ou de qualquer matéria-prima que riqueza alguma pudesse comprar.
A menina estendeu-lhe a mão, agarrando levemente o brinquedinho. Contudo, David não conseguia alcançá-lo. Estava ali. Encarcerado.
Aos pés da pequenina, havia uma serpente. Amarelada como o sol ao meio-dia. Dançava por entre aqueles pezinhos delicados. David estremeceu. A menina sorriu. Aproximou a mãozinha direita daquele animal tão astuto, que lhe abraçou a mão, e logo se amansou entre seus ombros e pescoço. David foi aos poucos dominando seu asco. O olhar da serpente o deixava... Entorpecido!
Algo curioso acontecia no interior de David. Suava frio. Algo dentro dele o consumia. Profundamente. Sentia como se tudo o que lhe faltava estivesse ali. Do outro lado. Sua face queimava, avermelhando sua pele. Era o desejo. Nada em particular. Apenas o desejo.
Com um sorrisinho brotado no rosto, a pequena pôs as mãos naquela parede gélida e macia. David fez o mesmo. Assim, ficaram-se entreolhando. David. A garotinha. E a serpente.
Uma forte fragrância rompeu o instante. Não se sabia ao certo de onde vinha. Porém, era inegável o quanto ela era extasiante. Brotaram-se afetuosos sorrisos em ambas as faces. De olhos fechados, os dois pequenos selaram um beijo carinhoso. Os lábios tocaram a parede macia, num beijo frio, mas afetuoso. A pureza de ambos se unia de forma intocável. Paixão jamais houvera. Apenas o amor.
Envergonhados, puseram-se a gargalhar juntos, com as mãos nos lábios. David já agarrava novamente seu brinquedinho com a mão esquerda.
A serpente já não estava mais sobre os ombros da menininha. Nem em lugar algum do recinto.
Ouviram-se ruídos do lado de fora. As folhas das árvores balançavam freneticamente. Não parecia ser efeito do vento. E, de fato, não era.
Surpreendentemente, incontáveis corvos se puseram a debater contra as janelas. Berravam e se debatiam com seus olhos amarelados e famintos. As janelas pareciam resistir firmemente. Mas as criaturas não desistiram. Suas garras e bicos afiadíssimos eram armas infalíveis.
A madeira era quebrada aos poucos, lá fora. A luz já invadia novamente o sótão. Os bicos surgiam através da madeira incessantemente dilacerada.
As duas crianças permaneciam ali. Estáticas. Sem retirar em instante algum o sorriso de suas faces.
A nuvem negra de olhar dourado destruiu a janela inteiramente devastando tudo o que lhe vinha ao encontro. O chão, as paredes, as cortinas. Tudo aquilo parecia ausente a eles dois. Coberto o menino por aquela nuvem, o ioiô foi abandonado. Em suas bordas estava escrito seu nome, em letras azul-royal.
De mãos dadas, apoiadas sobre o espelho, os dois não cansavam de se olhar. Nem de sorrir.
David pereceu ali. Frente ao espelho. Devorado impiedosamente por aquelas feras...
O espelho - Capítulo 5: A simetria
A. de Lima | 10:02 | | 4 comentários
O espelho - Capítulo 4: O espelho
A. de Lima | 10:42 | | 2 comentários
Silêncio. Novamente silêncio. No recinto, nada ali existia. Não havia móveis. Não havia brinquedos. Não havia insetos. Apenas o garoto.
Apesar de vazio, algo o fascinou como nada o fizera outrora. A parede. Não, não era qualquer parede. Era aquela. Lisa. Fria. Macia. Gostosa de tocar. Mas o que era tão especial nela? Acontece, leitor, que essa parede era a mais bela já vista e sentida por David. Ela era um espelho!
Os olhinhos inocentes cintilavam com o que via. Como aquele lugar ficou maior! Correu. Precisava tocá-lo mais uma vez. E assim o fez. Freou. Espantou-se. David notou que ele não era o único presente naquele lugar. Quem era aquele garoto do outro lado que o observava? Paralisados, os dois se encararam. Desconfiados, se aproximaram cautelosamente. Com as cabeças inclinadas, se fitavam. Talvez o pequenino não entendesse que aquele outro garoto não passava de seu reflexo. Quem sabe, lhe significasse mais que isso. Mas sem dúvida ele o perturbava. E muito. Ele roubou-lhe a identidade. Cada traço de seu corpo. Seus olhinhos, sua boca, seus membros, sua roupa, sua expressão... É, sua expressão. David resolveu desafiá-lo.
Pôs a mão direita em seu rosto. O garoto também. Agilmente, lançou-a para o lado. O garoto também. Assim, pôs-se a movimentar desordenadamente seus braços, mãos e dedos, esperando que o estranho não conseguisse acompanhar sua incrível agilidade. Todavia, ele o acompanhou. Imitou os movimentos de David como se fossem seus. Como se os tivesse criado. Isso era intrigante.
Respiraram fundo. Juntos, deram um passo a frente. Pararam. Foi dado o segundo passo. E a segunda parada. David teve uma idéia. Uma idéia brilhante. Ele possuía algo que seu companheiro não poderia possuir. Seu ioiô! Ele era o único. Quem mais possuiria um ioiô laranja, com os mesmos arranhões e com as mesmas histórias para contar. Surge um sorriso. Um sorriso de grande... Satisfação! Sentiu-se vitorioso e, olhando nos olhos idênticos aos seus, foi enfiando sua mãozinha no bolso. O idêntico também o fazia, mas David sabia que do bolso dele nada sairia. Enganado, garotinho, muito enganado. Seu sorriso foi desaparecendo, à medida que avistava um cordão saindo do bolso de seu companheiro, entre os dedos. E lá estava o ioiô. Laranja. O pequeno não acreditou. Aproximou-se até ficar cara a cara com seu reflexo. No entanto, agora este não o interessava, como antes. Encostou seu brinquedo ao espelho, e os analisou, girando-o aos poucos em sua mão. Cada traço, cada defeito, cada arranhão. Era tamanha a fidelidade das características de um para com o outro.
O menino ficou impressionado a ponto de ficar irritado. Largou seu ioiô no chão e esmurrou o espelho. O seu companheiro também. Tentou mais uma vez. E outras inúmeras. Em vão. Para David, isto soou como uma provocação.
Encostou sua cabeça, ofegante.
Uma mão tocou-lhe suavemente o rosto...
O espelho - Capítulo 3: O vento
A. de Lima | 10:24 | | 3 comentários
Por alguns segundos, David permaneceu estático. Observava a maçaneta prateada, imaginando o que haveria do outro lado. Sorriu. Finalmente decidiu abrir a porta e acabar de vez com a curiosidade que o dominava. Antes que tocasse o objeto prateado, a porta abriu sozinha. O menino arregalou os olhos e levemente abaixou suas delicadas mãos. Adiantou o pé direito e lentamente tocou-lhe os dedos da mão esquerda sobre o caixão da porta, esticando vagarosamente a cabeça a fim de enxergar o que havia naquele cômodo. Em vão. A escuridão era plena.
- David! David, meu anjo, por que você nunca me atende, meu filho? Eu já falei para você ficar lá embaixo comigo. – ouvia-se a voz da mãe e seus passos sobre as escadas
O garoto nem hesitou. Deu o segundo passo adentro do recinto e ali ficou por uns instantes, respirando o silêncio.
- Ai, meu Deus! – elevou Júlia o tom de voz – O que fazes aí nesse escuro, mãezinha?
Júlia, ao chegar ao segundo andar, observou o largo espaço que lá havia, e se apressou na expectativa de achá-lo em um dos dois corredores. Direcionou-se ao canto esquerdo. Bateu à primeira porta. Estava trancada. Avistou bem próximo às cortinas, um feixe de luz que ali brincava.
- Então queres brincar de esconde-esconde, não é, meu anjinho? – aliviou-se a mãe imaginando que o menino estivesse querendo ganhar sua atenção – Então lá vou eu.
No escuro, David retirou seu ioiô do bolso e se abaixou. Com a linha entre os dedos, deslizou cuidadosamente o brinquedo pelo chão. Não ouviu barulho algum. Engatinhando, foi seguindo o barbante, até encontrar o objeto, enroscá-lo com o fio e mais uma vez arremessá-lo.
A mãe, chegando à última porta, brincou, aumentando o tom de sua voz:
- Hum... Será que esse danadinho está aqui? Eu vou abrir a porta para descobrir...
A fechadura travou. Tentou girá-la e balançou a porta. Feriu levemente o polegar. Gemeu, sacudindo os dedos rapidamente.
- David, pára de brincadeira! Sai logo daí, que este lugar é perigoso, menino!
Após mais um arremesso, o ioiô atingiu algo próximo. Engatinhou novamente, seguindo o fio, e achou o que tanto desejava. Levantou-se, e como se fosse cego estendeu os braços aos poucos até tocá-lo. Apalpou. Era algo plano. Continuou o que fazia, caminhando para a esquerda. Tocou os ombros em algo macio. Resolveu tateá-lo, também. Parecia uma cortina. E atrás da cortina, uma janela. Uma janela de madeira, sem vidro algum. Retornou à parede, era gostoso tocá-la. Ao tocar em seus bolsos, lembrou-se de que havia esquecido o seu companheiro. Foi à sua busca. Caminhando, sentiu tê-lo chutado. Abaixou-se e não tardou para que ele o achasse. Ergueu a cabeça. Sentiu algo brilhante perante seus olhos. Era a parede macia. Ela brilhava. Não era um brilho qualquer. Era um brilho fascinante! Entorpecente. David permaneceu ali, entorpecido. Não sabia por que aquela parede brilhava, muito menos por que ela o fascinava tanto. Para ele, o porquê em si pouco importava. Não lhe interessava o saber, ao menos naquele instante. Interessava o sentir.
Levemente, as cortinas alisaram seu rosto. A luz que vinha da noite escondeu-se ali no sótão, e ao tocar a bela parede, refletiu-se ali e iluminou suavemente o pequenino. David se virou e abriu a cortina mais próxima, permitindo que a luz entrasse pelas frestas. Em seguida, fez o mesmo com as outras.
Suada, a mãe gritava. Preocupada, muito preocupada. Clamava o nome do filho, mas ele não atendia ao chamado. A porta insistia em não abrir.
Ali, no cantinho daquele cômodo, algo chamava a atenção. O pequeno se aproximou. Comprimiu os olhos, mas nada conseguiu enxergar. A luz ainda era insuficiente. O menino ficou intrigado. Resolveu abrir as janelas. Elas eram pesadas, mas com muito esforço ele conseguiu. O céu estava lindo. As estrelas fizeram-no lembrar do seu antigo quarto. Sentiu saudades. Só não sabia se isso era bom ou ruim. Uma brisa, dessas bem suaves, beijou seu rosto, fazendo-o sorrir.
Após muito insistir, a porta cedeu. Júlia aliviou-se um pouco. Ao olhar para a escada apressou-se. Subiu os degraus com passos apressados e no meio do caminho avistou mais uma porta, que estava semi-aberta.
Aos poucos, a força do vento crescia. As cortinas se agitavam cada vez mais. De braços abertos a criança fechou os olhos.
A mãe chegara ao topo da escada.
- David?
Impiedosamente, o vento adentrou o sótão. Violentamente, a porta foi fechada. Júlia foi arremessada para trás. Contra a parede. Caiu no chão em seguida...
O dia que (ainda) não terminou
A. de Lima | 16:54 | | 7 comentários

Bem cedo percebi que já era tarde demais. Durante o pôr-do-sol, aconchegado em minha rede, sentindo à face a brisa das seis da tarde (era verão), cigarro entre os dedos, eu me dou conta de que cinqüenta e três anos se passaram. Sim. Cinqüenta e três anos. E lá se está indo mais um dia precioso. Precioso? Não me lembro de, durante minha infância ou adolescência, chamar meus dias de preciosos. Talvez fosse pelo fato de que provavelmente eu ainda teria muitos deles pela frente. Não havia por que se preocupar.
Minha infância foi a minha madrugada. Na escuridão, pouco se conhecia. Minha mãe acompanhava-me os passos, e cada passo era dado com enorme prazer, e cada pedacinho de chão pisado com meus delicados e inocentes pezinhos era uma grande descoberta. Meus avôs me observavam de perto, sorrindo.
Passei aos poucos a desejar imensamente o nascer do dia. Tinha grandes sonhos. Queria poder caminhar sozinho, correr sem ter medo de tropeçar. Possuía a confiança de que após cada tropeço eu me levantaria mais forte.
O dia insistiu e nasceu.
Com o chegar da aurora, minha mãe finalmente soltou as minhas mãos. Estava crescido. A luz acabara de chegar! Faltava descobrir se isso era bom ou ruim. Eu sabia que havia algum problema com aquela luz, só não conseguia explicar. Era novo demais para isso. Demorou um pouco até eu perceber que olhar demais para o sol machuca a vista. E nos desgasta profundamente. Ai, como desgasta! Toda a minha euforia foi-se transformando em decepção. Nada era como parecia ser. O jardim do vizinho sempre é mais florido, disse-me minha avó uma vez. Memorizei essa frase, só não sabia seu significado. Agora eu sei. E como sei!
Admito que aos trinta anos eu chorei sozinho. Desejei voltar à infância, à proteção da mãe, à casa dos meus avôs. A casa ainda estava lá. Mas eles não. O tempo, esse câncer maldito, os carregou. Por que chorar? A morte é inevitável. Após enxugar minhas lágrimas, abri os olhos. Fui surpreendido. Foi quando aprendi que o mundo não pára para que a gente se sinta melhor. Minha nossa! Como meus dois filhos cresceram! O mais novo acabara de passar no vestibular. O mais velho já estava se formando e pretendia se casar. Lembrei de todas as vezes que não dei atenção ao engatinhado dos meus garotos, e que recusei levá-los ao parque. E, mais uma vez, era tarde demais para se arrepender.
Ao entardecer, cada hora parecia mais curta. O câncer do tempo impiedosamente me envelhecia, meus cabelos embranqueciam e caíam. E lá estava o sol, que há pouco nascia em minhas costas, bem na minha frente. Mas sua luz aos meus olhos cansados não maltrata mais. E tudo começou a escurecer, novamente. Tudo isso me lembrou o começo. Porém, como uma criança eu me enganei. Era o fim. Você pode nunca ter percebido, mas o fim e o começo estão mais próximos do que você imagina.
Enfim, chega o crepúsculo. Estou trêmulo de frio. Trêmulo de medo. Medo do escuro. Feito um garotinho. O sol está afundando! Não posso ser engolido pelas trevas! Então eu corro, e corro, para alcançar o sol. Em vão. E consciente de que não vou alcançá-lo, eu desisto. Resolvo deitar em minha deliciosa rede, fumar o meu cigarro. Fumar a minha morte.
Pela manhã, aprendi que não existe bicho-papão. Logo vi que era engano. Ele apenas não é como eu imaginava que fosse. Confie em minha palavra, ele existe e o persegue por toda a sua vida. Cabe a você encontrá-lo e enfrentá-lo. Atente-se para o que eu disse. Enfrentá-lo. Não significa que você chegue a vencê-lo, pois é bem improvável que isso aconteça.
Aqui estou. Teoricamente confortado. Rede. Campo. Palmeiras. Cigarro. Mal sabe você o quanto é imenso o pavor que corre em minhas veias. Contudo, afogando minha depressão em música, aprendi algo que jamais esquecerei. É preciso encarar o diabo cara a cara, mesmo sabendo que ele sempre dará a última risada. O diabo. O bicho papão. O medo.
Sentindo o calor de dois lábios em minha testa, fico de pé e beijo carinhosamente minha linda esposa. Quem sabe este seja o último. Ou o penúltimo, talvez.
Num abraço, olhando para o horizonte no silêncio do crepúsculo, sinto o cheiro do delicioso jantar que está por vir, e os dedos quentinhos de minha mulher tocando minhas mãos entorpecidas. Pelo frio. Pelo medo.
O espelho - Capítulo 2: A escada
A. de Lima | 15:36 | | 4 comentários
O manto da noite já vencia o Sol escondido entre as nuvens, que cansado ainda resistia bravamente, mas que mesmo assim adormecia, aos poucos. A chuva já havia parado quando Júlia e seu filho finalmente chegaram. Lá estava o novo lar. Como ele era belo e imenso! Vagarosamente, o jovenzinho saiu do veículo e pôs-se a observar detalhadamente o ambiente. A mãe, bastante cansada, orientava os homens que acabavam de sair do caminhão.
A lua cheia brilhava no céu coberto de estrelas. O menino, trajado com seu casaco azul marinho, observava na porta da casa, cautelosamente, cada ponto naquele manto negro, ligando-os em sua mente, formando desenhos variados. A mãe o chamava. Não conhecia direito aquele lugar, por isso era perigoso ficar do lado de fora, à noite. Todas as janelas foram fechadas. A porta de entrada também.
- Não quer ir dormir, meu anjinho? – disse carinhosamente a mãe, abraçando-o e o beijando no rosto.
O menino balançou a cabeça, negando. E se pôs a caminhar pelos cômodos, na companhia de seu ioiô laranja. A mãe, bastante cansada decidiu que arrumaria toda aquela casa, porque no dia seguinte desejava descansar. Os dois homens do caminhão de mudanças ajudaram-na com o trabalho.
Sentado no sofá recém colocado na sala de estar, David suspirava de tédio. Olhou para o teto. Levantou-se. Estava inquieto. Isso era raro. De certa forma a mudança de ambiente o afetou bastante. Onde estavam seus brinquedos? Seu quarto? As paredes azuis? O teto repleto de naves espaciais e estrelinhas brilhantes? Não havia mais nada daquilo, e isso o chateava. Chateava saber que não teria mais nada daquilo. Não como tinha antigamente. Tentou sentir o silêncio, porém não conseguiu. Não como o gostava de sentir. Aquele era apenas um silêncio abafado pelos passos, ruídos, cochichos. Nada que chamasse a atenção da consciência do pequeno rapaz. Uma escada! Sim! Uma escada! Enquanto seus pequenos passos perdidos passeavam pela sala de jantar, o garoto se deparou com uma bela e formosa escada. Tinha formato de espiral, degraus de mármore negro e belíssimas estruturas de madeira que sustentavam o corrimão, cilíndrico e detalhadamente dourado. Estava ali, no canto da sala de jantar, discretamente cativante. Apressou os passos e ao tê-la bem próxima a ele, pôs suas delicadas mãozinhas sobre o corrimão, e lentamente subiu degrau por degrau, analisando cautelosamente cada detalhe naquela estrutura que o cativara tanto. Em alguns segundos já estava no andar de cima. Após o último degrau caminhado, Abriu seus braços e respirou fundo. O menino se deu conta de que a presença do silêncio estava mais forte. Notou a grande diferença. Os ruídos ainda resistiam bravamente, porém estavam fracos. David deu um passo. O piso lá encima era de madeira. Um forte e breve barulho estilhaçou o precioso bruscamente. O garoto assustou-se, tremendo involuntariamente.
- David? O que faz aí em cima, meu filho? Desce já daí. – reclamou a mãe, ilustrando os móveis da sala.
Ela foi ouvida, porém não foi atendida. Foi-se dado o segundo passo. Lentamente. Sorrindo, o jovenzinho sentia que no final do corredor o silêncio absoluto o chamava, guiando-o passo a passo. Sentia-se quase que flutuando pelo corredor escuro. As trevas não o assombravam. Lá no fim existia uma janela, coberta por cortinas transparentes, o que não deixava o corredor tão tenebroso. Feixes de luz. Sim. Atravessavam a janela e tocavam delicadamente as paredes amarelas. Portas. Quatro portas. Duas do lado direito, duas do esquerdo. Portas de madeira, magnificamente molduradas. Provavelmente atrás de uma delas estaria seu futuro quarto. Tentou abrir a primeira à esquerda. Estava trancada. À direita? Idem. Assim como as outras duas. Olhou para trás. A cena era idêntica, numa simetria quase perfeita, se não fosse o fato de que a cortina do outro lado estivesse levemente rasgada. Corredor. Portas. Janela. Cortinas... Nada de mais. Mas esperem! Os feixes de luz lá no fim entregam ao rapazinho e conseqüentemente a ti, leitor, o fato de que existe uma última porta, no lado esquerdo. Ela foi vista. David ficou surpreso. Sorriu. Não havia se enganado: era para lá que o silêncio o guiava. Escorregou. O piso de madeira deslizava. Lá estava a última porta. Diferente das demais. Não era moldurada, nem envernizada. Era cinza, sua fechadura estava gravemente enferrujada. Era capaz de sentir o cheiro da ferrugem a certa distância. Certamente, naquele cômodo encontrava-se algo não muito utilizado pelo antigo dono da casa. O que seria? Um sótão? Provavelmente. Moveu a fechadura. Também estava trancada? Tentou de novo. A porta abriu, rangendo. Escuridão. Plena escuridão. Foi avistado um interruptor. David o apertou. Uma lâmpada acendeu. Escada. Uma nova escada. De cimento. Mau cheiro. Muito mau. Lugares que permanecem abafados por um longo tempo não tendem a cheirar bem, lembremos. Observando o lugar estreito, em que se tinha como fim uma parede, o menino notou a existência de mais uma passagem, agora no canto direito. Espirrou, assustando-se com o som do próprio espirro.
- David! Desce daí, meu filho. Já falei com você! Venha! Vem dormir...
Novamente não deu atenção à mãe. Suspirou. Aos poucos se foi adaptando ao odor do ambiente. E mais uma vez. Ele e uma nova porta. Semelhante à última, porém, a fechadura desta estava em bom estado de conservação. Quem sabe fora recém colocada. Desta vez, ele entrou facilmente. A porta junto à escada bateu. A mãe gritou seu nome. Ele não respondeu. Ela resolveu subir para ir buscá-lo...
Resposta
A. de Lima | 18:07 | | 4 comentários

Trêmulo e gélido
Na esperança de que a noite,
Este manto que me cobre de solidão,
E inevitavelmente me adormece,
Me aqueça... Ponho-me a admirar
Cada ponto cósmico.
Estrelas, meu caro! Apenas estrelas!
Soa-me a tua voz.
Fosse anteriormente uma tarde de sol,
Teu lamento contentar-me-ia! Talvez...
Mas a chuva, lágrimas da alvorada,
Derrama sobre mim seu doce abraço,
Que junto ao meu silêncio
Desenha o infinito entre as linhas
Desta humilde folha de papel perdida.
Calado, tu apenas me observas.
O que vês? Tu me interrogas!
Nada. Tens razão. Nada!
Quem dera poder acreditar em meus sonhos
Soltos... Ao avesso... Quem dera...
Mas eu sou o filho do ceticismo!
Aquele que foi amaldiçoado pelas trevas da dúvida!
Fosse eu um bastardo, talvez não possuísse tantos desejos.
Desejos? Quem me realizá-los-ia?
O tempo. Afirmas.
Oh, tempo! Leva-me em tuas asas, desgraçado!
Mostra-me o caminho de volta pra casa!
Mas eu não tenho casa.
Toca-me com tua frieza e clama meu nome!
Mas eu não tenho nome.
Sou foragido deste universo sem mundo. Sem dono.
Deste poço sem fundo! Afoga-me!
Sou um pobre caçador de sonhos extintos...
Apenas me leva! Sem ressentimento.
Envelheça-me. Ou me esqueça! Se puder...
O espelho - Capítulo 1: A casa
A. de Lima | 06:32 | | 6 comentários
Para a maioria das pessoas, aquele sábado de julho era mais um dia comum. Mas para o pequeno David era um dia diferente. Era um dia de mudanças. Assim como grande parte das pessoas, David não gosta de mudanças. Naquela tarde o garoto mudava da zona sul da capital para uma bonita e espaçosa casa no campo. Não era bem o que ele desejava, mas tinha em mente que independentemente de sua vontade teria de ser assim. Portanto, aceitou calado as decisões dos pais, que estavam se separando.
- Vai ser melhor assim, meu bem. – disse sua mãe, carregando algumas sacolas, ao perceber que seu filho parecia chateado.
Não era apenas aparência. O menino estava sentado no canto da sala vazia com os braços cruzados e com o olhar centrado no vago. Não queria sair dali. Tinha o receio de não encontrar diversão alguma no campo. Apesar de não ter amigos na rua onde morava, era gostoso viver ali. Amava seu quarto! Seu pequeno cômodo, suas paredes azuis, o teto enfeitado com estrelinhas brilhantes e naves espaciais... Enfim, aquele seu mundinho. Porém, como eu já havia dito antes, tudo aquilo ficaria apenas em sua memória, a partir daquele dia.
No fim da tarde tudo já havia sido colocado no caminhão de mudanças. O garoto não estava mais ali, no canto da sala. Estava estático, na porta de seu quarto, despedindo-se de seu antigo passatempo. A mãe o chamou, observando-o no início do corredor. Ele permaneceu ali por alguns instantes, enxugou uma lágrima que escorria por sua delicada face e se retirou. Veio ao encontro de sua mãe, que o abraçou e juntos foram para o carro. Todas as janelas fechadas. Já estava escurecendo. Enquanto a mãe trancava a porta de entrada da casa, a criança, agora dentro do carro, continuava admirando o que era seu lar, com os olhos avermelhados, brilhantes. A mãe entrou no carro. O veículo acelerou.
David não era uma criança comum. Ele se sentia bem sozinho. Era de sua preferência. Gostava de sentir o silêncio ao lado de seus brinquedos. Passou grande parte de sua contínua infância dessa forma. Às vezes ia à rua girando seu ioiô à companhia de seu tio predileto. As crianças o chamavam para brincar. Ele sempre recusava. Queria estar ali com seu tio, apenas. Sentia-se diferente das crianças de sua idade. Ele não sabia dizer o porquê. Na verdade ele não dizia. Não gostava do ato de dizer. Não me refiro apenas a seu comportamento em relação às crianças. Falo dizer de qualquer modo. O ato de dizer em si. Para ele falar causava a quebra do silêncio. Mas ele amava o silêncio. Sorria ao sentir o silêncio! Creio que não há mais dúvidas de que David não era, digamos, uma criança de oito anos qualquer.
O caminhão de mudanças ia seguindo o carro de Júlia. A chuva fina, destas que molham aos poucos, caía sobre aquela cidade. David observava o movimento incessável do limpador do pára-brisa e a janela lateral embaçando aos poucos. Passeando seus dedinhos na vidraça, o menino escrevia seu nome. Procurava-se entreter de alguma forma. Ainda pensativo, despedia-se da antiga casa em seus pensamentos. Tinha a forte impressão de que detestaria o novo lar. Em alguns instantes, David cansou de escrever seu nome e resolveu admirar a paisagem. Via as montanhas bem distantes. Sorriu. Era amante da natureza...
