Diego

O sal que sai do sol solda minha pele
Camuflada por passos, vozes e dióxido de carbono
Sorrio. Dentes brancos, pretos, amarelos
Quanto dente torto, meu Deus! Me exclamam os carros.
Mas meu sorriso frouxo nem responde nada.

Moedas caem de medo, moedas vêm em segredo
Titilam, brilham, gritam!
E o vermelho se faz verde,
E no verde da grama deito
E lembro que todos os dias eu sou esquecido.

Minha identidade está em minhas mãos,
Banhadas de teu doce açúcar,
De meu açúcar amargo,
De tua carne vermelha
Salgada pelo suor
De minha carne crua e encardida
Vendida a centavos
Que meus dedos já não podem mais contar.

O vidro que te esconde fez-se espelho
Mostrou a minha cara, a cor de minha fome
Do cinza das nuvens fiz meu teto,
Do pano sujo que carrego fiz meu nome.

Sina

Secou de minh’alma de esperança a folha última
Meu amor abrasado fora transformado em matéria bruta
Meu verbo inflamado, a pulmões deflagrados, hoje emudecido
Meus pés molestados desenham fraquejados um caminho esquecido.

Meus ouvidos bebem o escorregadio gotejar das estalactites
Minhas mãos entorpecem com o frio definhar das minhas artrites
A escuridão cresce e tece, a meus sonhos padece em canção esquecida
É a solidão que esbraveja, me beija e deseja o meu sopro de vida!

Divã

Diva!
Vida...
Dádiva vívida!
Ávida!
Vivida...
Dividida?

Vadia!

Sal

Correm contra meu sorriso os vis ponteiros
Caem sobre o chão cartas, cabeças e travesseiros
Malas se trancam, guardam lembranças, guardam você
Malas que passam, malas que descem, malas que calam.

É o adeus que nasce,
É a madrugada que cresce,
E a ansiedade reproduz-se,
E meu coração envelhece,
E a solidão,
E o silêncio,
E os suspiros,
E a saudade
Esses nunca morrem.

O sorriso sim.

Rua vazia que chora, já dizia a canção
Dos carros que transitam pelo trânsito sem transição.
Madrugada monótona.

Já se ouvem os pássaros,
Já se ouvem os passos,
Passa, passa, passaporte!
Sussurros sonoros.
Sílabas surdas.

Soluçaram-se as lágrimas do adeus indigesto
Suas mãos já destilam do sofrimento o excesso
Cai! Cai! Cai da órbita de seus olhos
Saudade insípida, saudade amarga
Saudade incolor, saudade cinza
Sal. De saudade.

Conjuração

Vem, brisa parda da aurora! Vem!
Para que eu não ouça mais da inocência a cólera.

Eu quero ouvir explosões estelares além da heliosfera
Carregar sobre os ventos solares o meu canto e náusea
Jazer-me as aflições destiladas na heliopausa
E esquecer a cor caótica da atmosfera!

Eu quero me esculpir envolto ao núcleo dos cometas
Desvanecer meu ego pelas órbitas curvilíneas
Sepultar nos astros, do coma às caudas finas
A impetuosidade astronômica dos planetas!

Eu quero conjurar meu verbo de Andrômeda a Hydra
Pelo vácuo micrométrico das poeiras interestelares
Pungir-me em brasa viva nas profundezas tépidas dos mares
Esmorecer as agitações atômicas da clepsidra!

Em reação cromodinâmica rasgo-lhe do infinito véu e manto
Do macrocosmo, pai das constelações, galáxias e sistemas,
Reduzo-me à natureza mínima dos morfemas
E fragmento-me nas areias desertas do Atlântico!

Luz de veludo

Queime em minha face nua teu escaldante hálito
Pra que em minha epiderme ferva a febre de teus lábios
Estatize-me a pele e ossos com o deslize de tuas plumas
E que tua voz macia me arrebate a alma de um modo tácito.

Não mais cantarei a canção fúnebre, o suicídio, o fim
A retirada em marcha dessa vida infindavelmente trágica
Teu olhar vorazmente atingiu-me a alma como em mágica
Meus suspiros clamam por teus seios, tua nudez em mim

Noite fria, manto de alvas nebulosas sob o cosmo, escurece
Cobriram-se teus dedos da poeira estelar que em teu suor se refletem,
Molhou-se o calcanhar do gotejar das nuvens, das águas que partem
Rumo ao abismo de teus ombros que oniricamente me aquece!

Mateus 27:5

Eis que no verão há uma rosa que se fecha
Eis que no grito há um som que não se propaga
Eis que nas trevas há uma vela que se apaga
Eis que na guerra há uma lança que não se flecha.

Pálida a rosa tímida que ao sol fraqueja
Pétalas de tão finas, frágeis, estremecem
Sépalas, de tão puras, débeis, enlouquecem
No meigo toque da moça que à rosa beija

Sou a vela consumida ao amanhecer,
A esperança que se compra sem mais valer,
O fogo que em trevas se ofusca ao pó da terra,

Sou a lança que na bonança se abandona,
A muralha que em tempestade desmorona,
Sou o soldado que se oculta ao caos da guerra.