Felicidade Clandestina

 
A tarde azul era cheia de graça
Bem como ao nome que a ti se escolhera
Azul também era tua roupa na praça
No dia em que a gente se conhecera.

Pouco sorriso, mas nem tanto o siso
Dos primeiros encontros que tivemos 
Em casa do irmão, repartindo risos
Que afloraram enquanto convivemos.

Três de novembro ao altar vos levei
À luz dos anos família eu vos fiz
Mar de cristal convosco velejei
Até o mal atingir nossa raiz.

Sou em tuas mãos o sangue inocente
Quem mal dito foi sem sequer dizer
Chorando mudo o silêncio à tua frente
Palavras que feriram sem doer.

Versos que vos fiz jazem esquecidos
Nas entranhas das areias do tempo
Memórias, fotos e abraços queridos,
Sepultados sem nota de lamento.

Teu seco silêncio amargo atordoa
O som do que não disseste ainda ecoa
Em proporções tais sobrenaturais
No grito de minh'alma ele subsiste
Dentro de mim o silêncio ainda existe
Onde tu, irmão, não existe mais.


Anjo sem asas

 O céu se partiu em águas cinzentas
No alvorecer do Sol que pranteava,
Os anjos descoloriam as nuvens bentas
E seu pesar sobre nós se desabava.

Ao meio-dia cessou-se o gotejar
Do firmamento que outrora aluía,
O azul em vermelho se fez sangrar
Ao ver o anjinho sem asas que caía. 

Como aquarela, desbotou-se o dia
Co'as lágrimas da mãe que ao céu clamava
E ao consolo do Senhor recorria.

Em seus joelhos para o alto olhava 
Silenciosamente ela assistia
O anjo sem asas que ao céu regressava.

As Dunas

 Não se sabe ao certo por quanto tempo ele viajou, mas sugere-se que todo o itinerário fora percorrido durante algumas horas, dada a posição do Sol naquele momento. No olho do furacão de areia que o redemoinho se tornara, a Pipa resistia a todos os obstáculos que enfrentava e o andarilho segurava-se firme a ela, sem se preocupar com a altura em que se encontrava, pois cria que a força da tempestade o impediria de cair, além de confiar na força de tração da linha que o levara até ali.

A garganta marrom que o mantinha em cativeiro rugia e ruminava areia, e por dentro dela o vento uivava. Os pés pendurados balançavam em ziguezague e o corpo girava feito um acrobata em torno de sua corda no ato final de um espetáculo circense.

Pouco a pouco a poeira fina e terrosa dispersava-se, e no céu era possível admirar a Pipa verdinha norteando-se para as dunas, na parte mais alta da região. Paisagem adentro, tudo era areia e sal. O mar era o manto azul que cobria toda aquela costa, sem que houvesse um trecho sequer de mata verdinha que pudesse cobrir sua nudez.

Existiam duas grandes dunas, idênticas entre si, e foi no ponto de encontro entre as duas que a Pipa o repousou e partiu, para que ele mesmo escolhesse para onde iria a partir de então. O andarilho curvou-se para a esquerda e pôs-se a caminhar sobre a areia quente, posto que o Sol acusava que eram meados da tarde. Não bastasse o calor e a inclinação da subida, a caminhada era lenta e homeopática uma vez que seus pés afundavam a cada passo da escalada.

À tardinha, a areia já esfriava, e o céu se alaranjava, alarmando que a noite em breve chegaria. O Sol não mais o castigava, pois se escondera do outro lado das dunas. Tivesse ainda forças, arriscaria o esforço para prestigiar o pôr-do-sol, mas o cansaço não permitia que ele sequer pensasse em tal possibilidade.

A noite chegou e com ela a praia tomou uma coloração fria e cinzenta. Ao menos era mais confortável caminhar sobre as dunas naquele instante. Erguendo sua visão para o alto, viu um ponto de luz no topo e descartou a possibilidade de ser resquícios do pôr-do-sol, já que ele se punha por completo. Como estava bastante próximo, aguardou com paciência até que se aproximasse para verificar o que era aquela luz.

Era uma fogueira. As brasas eram vivas e a chama consistente, mas não parecia ela ter sido acesa recentemente, inexistiam sinais de que alguém por ali tivesse passado nas últimas horas ou até mesmo dias. A fumaça proveniente era esbranquiçada, e destoava com a negritude da noite vazia e escura.

Visto que a única fonte de iluminação era a fogueira, procurou nas proximidades o melhor espaço em que ele pudesse adormecer. As opções não eram diversas, afinal, tratava-se de um lugar desértico, inabitado, desflorestado, reduzido minimamente ao pó. Ataques por animais de hábitos noturnos eram improváveis de acontecer, por isso sua única preocupação seriam as variações de temperatura até que amanhecesse.

Com as mãos em formato de concha, ajuntou uma porção de areia para que lhe servisse de travesseiro e ele pudesse recostar sua cabeça. O frio não era intenso, destarte seu agasalho aliado ao calor da fogueira o manteriam aquecidos. Deitado, olhos ao céu, contemplava a escuridão plena da noite sem lua nem estrelas. A fumaça branca na subida se perdia, a chama ardia, mas não se consumia.  O andarilho, sob o calor do fogo, adormecia.

As nuvens surgiam densas, por todo lado da Terra, como montanhas de gelo suspensas que se derretiam em chuva arrojada. A água fria respingava sobre o corpo do andarilho, que sequer se movia. A fogueira não se intimidava e queimava sem cessar. A terra molhada, cada vez mais viscosa e enlameada, lentamente afundava o corpo daquele que dormia, o qual, por fim, despertou. Trêmulo e assustado, sem assimilar o que estava ocorrendo, levantou com certa dificuldade, pois seus membros e a lama já estavam em estado de simbiose.

Sobrepondo as mãos ao fogo para mantê-las aquecida, temia perder sua única fonte de luz e calor, que felizmente resistia com êxito. Olhou para dentro da fogueira para se certificar de que ela duraria até o amanhecer, mas seus olhos incandesceram, pois poderosa era a sua luz. Repentinamente, a chuva deixou de molhar a ele, à terra e a tudo o que estava no topo daquela duna. E era possível tudo enxergar como se fosse dia, pois a chama brilhava como o sol.

Toda a sua luz se tornou branca, que permitiu que o andarilho enxergasse sem que seus olhos se irritassem. E ele teve a seguinte visão: No coração de uma praia paradisíaca, surgiu um reino que continha um gigante castelo de areia, governado por uma rainha vestida de pérolas. O príncipe, seu filho, era protegido por um lobo branco. O castelo tinha quatro torres, e em cada uma delas habitava um animal guardião, sendo eles um uma águia, um cavalo, um falcão e um guepardo. Em seguida, viu o céu enrubescer, tomado por uma lua de sangue, e todo aquele que olhasse para ela ficaria cego. Por fim, viu o príncipe vestido de branco chorando sobre os escombros do castelo de areia, e à volta, por toda a costa, tartarugas mortas. Após a visão, a luz branca se ofuscou, transformando-se novamente na chama que ardia.

Do fogo, materializou-se uma pomba branca que trazia consigo um punhal de ouro. Saltando em sua direção com as asas abertas, ela lho entregou e se desfez em cinzas. Atemorizado, o andarilho sentiu as mãos e a fronte arder, e tomado por profunda sonolência, caiu em terra, com a arma empunhada e o rosto em pó, até a viração do dia.

A Pipa

 

Havia abandonado na praia um tronco de árvore, o qual não se bastava a ponto de enfeiar a paisagem, no entanto não era discreto de modo que permanecesse despercebido por quem cruzasse com ele, uma vez que sua casca era grosseira, o que lhe dava uma aparência bastante robusta. Não era possível calcular de forma precisa como ele chegou até ali, dado que não havia árvores naquele entorno, o que seria justificado apenas com a interferência humana.

O modo como o tronco fora parar ali não lhe era nem de longe a verdeira preocupação, mas sim aquilo que o adornava. Armada por varetinhas de madeira caprichosamente encapadas por um fino papel de seda, presa à linha que mantinha atrelada ao tronco estava uma pipa, cuja cauda valsava com o vento, que a ritmava lentamente um passinho para a direita, outro para a esquerda.

O andarilho olhou para os lados e arriscou voltar-se para trás, a fim de se certificar de que ninguém o observava. Ele se encantou por tamanha sutileza, não só pela combinação entre os tons de verde que a coloriam, mas também pelo cheiro suave que ela exalava.

Devagarinho, tirou da cabeça seu chapéu pontudo para que não danificasse a preciosa obra de arte que contemplava, e então aproximou seu nariz junto à seda que compunha a asa da pipa, a qual, como se o compreendesse, inclinou-se, recostando-se ao lado esquerdo de sua face, e, como o beijo de um casal apaixonado, sua cauda enrolou-se a seu braço, acariciando-o.

Era mistério quem a teria colocado ali; em contrapartida, era nítido o seu desejo por ser livre. Deslizou seus dedos pela linha, até encontrar onde estava o nó que fazia dela prisioneira do tronco abandonado.

Desatado o nó, sem hesitar abandonou-a ao vento, para que ela pudesse usufruir da sua liberdade. Duas, três piruetas ao ar abanando o rabinho, a Pipa girou em torno do seu próprio eixo e descansou ao seu lado. Não havia nada que a impedisse de voar, do contrário, a ventania lhe era favorável. Mas ela permaneceu ali.

Afastando-se lentamente, o andarilho acenou, despedindo-se da amiga que libertara. A linha, por sua vez, enroscou-se ao seu pulso e puxou-lhe de súbito, fazendo-o tropeçar em seus próprios pés. Na asa, em meio aos diversos tons, havia dois pequenos losangos  separados simetricamente pela varetinha central, que se assemelhavam a olhos de esmeralda.

A rabiola verde-mar se agitou, a surpreendê-lo provocando um pequeno redemoinho que magicamente tirou seus pés do chão. De olhos entreabertos, sentiu seu coração acelerar em um misto de fascínio e confusão. Mais surpreso que assustado, agarrou-se à rabiola, lançando seu próprio corpo de volta para o chão.

O redemoinho foi-se tornando uma tempestade de areia, que o ascendeu para o alto lentamente, contra a qual ele não tinha forças para lutar. Por mais que agitasse seus pés em direção ao chão, a Pipa resistia ao peso que carregava e o levava ao destino que lhe reservara.

Ele respirou fundo e nesse inspirar encontrou silêncio dentro de si, posto que a elevação a que estava submetido logo lhe trouxe paz, após o breve momento de estranhamento.

Naquele instante, seu espírito encontrou plenitude, e ele se ouviu cantar em uma língua que nem mesmo ele conhecia. Mas sua alma compreendia cada palavra balbuciada com louvor. Nela ecoava uma orquestra ministrada por anjos, cujo coro se manifestava através de sua voz.

Aos seus pés, a areia se dissipava à proporção que a Pipa o conduzia, e de cima ele podia visualizar a corrente de ar desfazendo suas pegadas, uma a uma, até a última, apagando assim da memória da praia os sinais de seu arrebatamento. Até que a tempestade de areia subiu para escoltá-lo, e sua intensidade não lhe permitia mais enxergar o caminho com os olhos naturais.

Decidiu, assim, continuar sua viagem onírica com os olhos da própria fé, mediante a certeza daquilo que se esperava, provando a si aquilo que não se via.


O Barquinho

 

Seguia perseverante quase ao horizonte flutuando sobre a enseada um barquinho. Guiado pela brisa oceânica, cortava a água como se nele houvesse um grande marinheiro, que desbravava os mares à procura de grandes aventuras, no entanto era apenas um barquinho de papel.

Ao longe, aquele que caminhava solitário pela praia o acompanhava, tomando-o por guia naquela manhã azul. Se o barquinho titubeava para a esquerda, assim ele o fazia. Se avançava para a direita, era para lá que ele corria.

O vento arrepiava a superfície da água, e a distância se via o barquinho tomar-se de gostosa agitação, tal qual uma embarcação que enfrenta uma forte tempestade. Os pés, que anteriormente se preocupavam em não deixar marcas onde passava, paulatinamente elevavam seu ritmo ao passo que percebiam que a pequena embarcação se distanciava.

E correu, ainda que meio desajeitado e perdendo o equilíbrio, com seu jeito curioso de pisar batendo os pés ao chão, e balançar as mãos ao inclinar seu corpo para frente para pegar impulso. A cada pisada, sentia a água fresquinha respingar em seu rosto. Com as mãos para frente, brincava de tentar capturar a gotinhas que desciam. Experimentou fazê-lo com a língua, abrindo a boca e fechando os olhos para senti-las melhor. Péssima ideia, a água era deveras salgada. Ainda de olhos fechados enquanto corria, inevitavelmente reduziu o passo e esfregou o dorso da mão esquerda nos lábios. Reabrindo os olhos, desacelerou ao calcular que estava suficientemente próximo ao barquinho para não perdê-lo de vista.

Sentiu uma mancha escura correr por debaixo d’água, entre seus pés. Saltitou para o lado, assustado. Observou ao seu redor através da água cristalina e constatou que nada havia ali de ameaçador. Antes que reiniciasse sua caminhada, viu, novamente entre seus pés, uma mancha pontiaguda e triangular que avançava na mesma direção para onde ele seguia.

Tentou, sem sucesso, capturá-la com os pés. Ela era intocável. Tinha apenas forma, mas era impalpável – era uma sombra. Inclinou seu olhar para o céu e viu pousar como pomba sobre seus ombros e alçar voo em seguida. Ainda que voasse, não era ave. Era um avião. Um aviãozinho de papel.

Persistente e sagaz, a sombra do aviãozinho crescia por dentro da água à medida que se levantava ao sol. Abriu os braços e acompanhou o plano de voo, enquanto os pés cortavam as águas que carregavam sem cansar o barquinho de papel. O vento guiava o avião; a água, o barco. A fé, os pés e braço de quem os acompanhava.

Notou-se que o córrego se estreitava, e com ele o barquinho desacelerava. O caminho da enseada foi-se encurtando até que o barco deixou de correr e flutuou lentamente até encontrar uma pedra fincada à areia. A água límpida conservava sua boa aparência, apesar de saber que o tempo a faria desgastar-se até enfim definhar.

Parado diante da pedra, decidiu se tomaria para si o barco ou o desviaria da pedra para que ele reencontrasse seu rumo. Com receio de que ele se desmanchasse, afinal era um barco de papel repousado sobre a água, espalmou suas mãos e cavou cuidadosamente uma porção de areia para que a embarcaçãozinha tivesse sustentaçao.

Cada dobrinha pareceu-lhe ter sido feita com divino capricho, tendo em vista a sua simetria. Os ângulos e as formas que o compunham encantavam pela organização geométrica de sua estrutura, curiosamente resistente e intacta. Decidiu por levá-la consigo, e o fez da maneira mais ingênua e criativa possível. Apertou-lhe um pouquinho nas extremidades, e ele expandiu às laterais. Cuidadosamente, guardou-o sobre sua cabeça, tornando-o um divertido chapéu.

O aviãozinho, enciumado, pousou em seu ombro. Ao recolhê-lo com a ponta dos dedos para não amassá-lo, notou que em sua asa havia em pequenas letrinhas uma escritura que dizia: “Eis o meu filho amado, que me dá muita alegria”. Sua face enrubesceu e seu espírito se encheu de Silêncio.

Olhou para o Sol e, com a mão esquerda, pegou impulso e arremessou o aviãozinho para cima, que cortou o vento rumo ao infinito seguindo o caminho de luz que o conduzia e desapareceu diante dos seus olhos.

Por fim, pegou a pedra em mãos e com a ponta dos dedos rabiscou o nome que daria a ela. Feito isso, deixou-a no mesmo lugar onde a encontrara e tornou à sua caminhada, que dali em diante marcaria suas pegadas na areia fina, quente e fofa.

E foi assim que no meio do caminho tinha uma pedra. Tinha uma pedra no meio do caminho. Fincada à areia, carregava o nome que lhe deram: Ebenézer.

A Enseada

  

O vento fresco e preguiçoso arrepiava a costa larga da erma praia à luz da aurora renascente enfeitada pelas nuvens de algodão rosa que passeavam pelo céu de baunilha. O arrulhar dos pombos que ora brincavam, ora brigavam entre si à procura de alimento ecoava pelo vazio, misto ao coro das águas que forravam a areia macia e úmida. Como as teclas de um piano as ondas se sobrepunham umas sobre as outras sob o respirar divinal que as conduzia para frente e para trás.

O incessante louvor era ministrado pelas águas que se aqueciam pelo sol nascente, cujas línguas de fogo repousavam sobre a maré baixa. O sopro quente e invisível agitava os grãozinhos de areia que se dissipavam pelo ar litorâneo dissolvendo-se no azul da aquarela daquela manhã que surgia.

O Silêncio pairava sobre as vagas entreabertas, deitando-se pelas mornas espumas de sal que se formavam e logo se desmanchavam no encontro com a areia fina e esbranquiçada. Num suspiro suave, as ondas tornavam a adentrar o oceano, desnudando a praia em sua quietude, e assim sorrateiramente, num beijo mais demorado, o mar pudesse invadi-la em sua intimidade, amaciando-lhe a areia e refrescando sua costa nua.

Como um casal apaixonado que celebrava as núpcias a cada amanhecer, mar e praia desfrutavam de seu eterno amor. Como uma mão aveludada, os dedos de sal escorregavam pelo tapete arenoso, a encontrar um pequeno castelinho de areia.

O muro que protegia as dependências do castelo era dotados de elegante singeleza, bem como a formosidade com a qual as torres foram erguidas. Adornado com pequenas conchas que reforçavam a proteção contra investidas inimigas, o muro alto resistia aos sopros matinais, bem como ao confronto das espumas. Sendo assim, o átrio externo não inundava, deixando a salvo a cavalaria guardada nos estábulos.

Ao passo que a manhã se estabelecia no azul celestial, a faixa de areia se encurtava, e, não fosse o corpo deitado em sua volta, o castelinho certamente desmoronaria.

A água morna e agitada não fora suficiente para acordá-lo, posto que se encontrava em sono profundo. O castelinho era protegido como um pai a um filho recém-chegado, posto que, adormecido em torno de sua criação, seu corpo formava uma barreira suficientemente eficaz.

A maré, por sua vez, seguia avançando, alagando os entornos do castelo. Enquanto ela subia, num breve respirar, aquele que descansava o rosto na areia aspirou água por seu nariz e boca, acordando assustado em breves espasmos. Seus olhos entreabertos assistiam o mar diluir seu castelinho, com a ajuda de uma pomba branca que buscava alimento entre as conchinhas que protegiam seu muro.

Lentamente, ele sentou à areia, frente ao mar, sem se importar se encharcara sua camisa branca agarrada ao seu corpo, ou se manchara seu casaco azul com a lama que se formara após a invasão da maré ao seu território. Admirava, sentado, a perfeita simetria cuja linha que separava os dois eixos encontrava-se no horizonte da imensidão do mar. O Sol aquecia sua face alva, secando-lhe os cabelos negros que, cacheados, adornavam-lhe a fronte.

Levantou-se, sem desviar a atenção um segundo sequer do movimento das vagas que iam e vinham, incansavelmente. Caminhou, a passos lentos, abandonando sua construção desmanchada no coração da praia. O mar na areia esbranquiçada desenhou uma trilha que refletia o azul celestial, como uma enorme cobra de vidro que o guiava, de modo que, sem pressa, ele percorria seu caminho sem deixar vestígios de sua passagem.

E seguiu viagem. Para onde, ninguém sabia dizer. Apenas o Silêncio que se esvaía junto a suas pegadas e subitamente se deleitava no gotejar das suas mãos molhadas, ou ainda no bater das asas da pomba que alçou voo e pôs-se a acompanhá-lo de longe, em seu caminhar que ele realizara a esmo incontáveis vezes desde que ele ali estivera pela primeira vez.

O telefonema

 

Terças-feiras são dias de trabalho cansativos por natureza. Pobre segunda-feira, sempre criticada por ser o primeiro dia de labuta após nossos tradicionais dois míseros e preciosos dias de descanso, popularmente conhecidos como fim de semana. Mas ninguém fala sobre a terça. Diferente do dia que a antecede, ela carrega sobre si o fardo de suceder um dia de trabalho e de anteceder outros três, quando não quatro. Envio de boletins, devolução de simulados, preparação de revisões para o NEM, organização de reunião de pais e mestres. Esse era o retrato do meu terceiro dia da semana, por cujo fim eu já clamava ali, às dezoito horas, enquanto conferia as notas da terceira série do Ensino Médio.

Telefone vibrou à mesa. Pais, alunos, professores, diretora, colegas de coordenação. Todos eles justificam o fato de meu aparelho permanecer no modo silencioso desde o dia de sua compra. Ao deslizar meu dedo pela tela para atender a chamada, a ligação foi encerrada. Era Vó.

Vó não é minha avó. Mas é. Todos aqueles que convivem comigo encaram com naturalidade minha parentalidade clandestina. Vó é uma delas. Ela, assim como alguns irmãos e meu filho, não compartilham do mesmo sangue que eu, e me conhecera após os meus vinte e cinco anos. Ainda que seu neto e meu irmão tivesse partido para o sudeste do estado em março do ano passado, nosso contato permaneceu, como bons neto e vó que somos. Dia dos avós, aniversário de ambos, saudades ou novidades acerca do meu irmão, sempre houve um motivo para uma breve ligação, uma vez ao mês que seja.

Meu coração se agitou de alegria. Em uma de suas ligações, ela me comunicara que meu irmão viria para a cidade, passar um tempo conosco. Talvez fosse um convite para um café, e ao chegar lá eu me depararia com ele sentado no sofá e de braços abertos, prontos para receber meu beijo e abraço. E se ele abrisse a porta quando lá eu chegasse, contando que ficaria na até o final do ano? Para não estragar surpresas, evitei pensar demais e achei de bom grado retornar de imediato a ligação.

Como se ainda estivesse com o celular em mãos, não tardou que ela atendesse. Oi, meu neto, que saudade. Meu peito aqueceu, e sem esforço, sorri. Está chegando meu aniversário, e gostaria que você estivesse aqui conosco, para a gente se despedir. Minha língua dobrou-se entre meus dentes, a respiração cessou e senti meus pés formigarem. Estou indo embora para Fortaleza, e no meu aniverário quero me despedir de meus entes queridos. As pessoas por aqui não estão gostando muito da ideia, mas nem tudo na vida é como a gente quer, não é mesmo.

De fato. Não me senti à vontade para perguntar-lhe o motivo que a levaria embora para tão longe, por isso aguardei alguma informação a respeito. Não me recordo de ela ter parentes em Fortaleza. Estava eu tão desnorteado, que não compreendera que não apenas ela partiria, mas toda a família. Minha filha foi promovida. Todos nós iremos embora.

Todos.

É demasiadamente empolgante ouvir que a mãe de seu irmão foi promovida. A notícia está diretamente ligada a sucesso profissional, bem-estar e prosperidade. E demasiadamente frustrante foi entender que, se a família do meu irmão, o qual vive hoje em São Paulo, está partindo para Fortaleza, as nossas possibilidades de reencontro praticamente se anulam. Meus olhos corriam pelo chão branco do corredor frente à minha sala, e senti as frestas entre os pisos se abrirem e a saudade me engolir.

Tivera eu aproveitado os cafés após o trabalho, sucedidos pela poltrona reclinada e as carícias do pequeno cachorrinho que não parava de saltar de alegria sobre mim, entre lambidas e latidos? Usufruí eu das partidas de futebol no videogame, ainda que tivesse que aceitar que minhas habilidades eram infinitamente inferiores? Cada abraço de chegada ou de partida foram dados com a significação que eles mereciam? Poderia eu ter cantado mais uma música junto a meu irmão no Karaokê nas festas de família, embora nossos gostos musicais fossem tão distintos? E se eu tivesse rejeitado meu sono mais um pouquinho, só para ouvir mais uma peripécia da infância de meu irmão contada à mesa por sua mãe? Deveria eu ter pulado na piscina com a Vó em seu aniversário de setenta anos, em vez de ter rejeitado o momento por não estar com a roupa apropriada? E todos os beijos na testa da Vó, foram suficientes? E todas as vezes que acordei, após o almoço, e meu irmão dormia no sofá, observei-o em silêncio? Beijei-lhe cuidadosamente a cabeça antes de voltar ao trabalho sem que o acordasse?

A tempestade de lembranças foi interrompida pela vozinha embargada do outro lado da linha, que desejava minha presença em sua festinha de aniversário. E sua despedida. Ainda com os olhos ao chão e monossilábico, procurei fragmentos do meu coração que ali se despedaçara. Ao fim do telefonema, o gosto amargo do nunca mais. Não o nunca mais do que está porvir, pois este não me pertence. Mas o nunca mais daquilo que passou, daquilo que vivemos, que não mais poderá ser revivido, apenas reapreciado por intermédio de meus vocábulos perdidos nesta folha onde derramo minhas memórias, de riso ou de pranto.