O dia que (ainda) não terminou


Bem cedo percebi que já era tarde demais. Durante o pôr-do-sol, aconchegado em minha rede, sentindo à face a brisa das seis da tarde (era verão), cigarro entre os dedos, eu me dou conta de que cinqüenta e três anos se passaram. Sim. Cinqüenta e três anos. E lá se está indo mais um dia precioso. Precioso? Não me lembro de, durante minha infância ou adolescência, chamar meus dias de preciosos. Talvez fosse pelo fato de que provavelmente eu ainda teria muitos deles pela frente. Não havia por que se preocupar.

Minha infância foi a minha madrugada. Na escuridão, pouco se conhecia. Minha mãe acompanhava-me os passos, e cada passo era dado com enorme prazer, e cada pedacinho de chão pisado com meus delicados e inocentes pezinhos era uma grande descoberta. Meus avôs me observavam de perto, sorrindo.

Passei aos poucos a desejar imensamente o nascer do dia. Tinha grandes sonhos. Queria poder caminhar sozinho, correr sem ter medo de tropeçar. Possuía a confiança de que após cada tropeço eu me levantaria mais forte.

O dia insistiu e nasceu.

Com o chegar da aurora, minha mãe finalmente soltou as minhas mãos. Estava crescido. A luz acabara de chegar! Faltava descobrir se isso era bom ou ruim. Eu sabia que havia algum problema com aquela luz, só não conseguia explicar. Era novo demais para isso. Demorou um pouco até eu perceber que olhar demais para o sol machuca a vista. E nos desgasta profundamente. Ai, como desgasta! Toda a minha euforia foi-se transformando em decepção. Nada era como parecia ser. O jardim do vizinho sempre é mais florido, disse-me minha avó uma vez. Memorizei essa frase, só não sabia seu significado. Agora eu sei. E como sei!

Admito que aos trinta anos eu chorei sozinho. Desejei voltar à infância, à proteção da mãe, à casa dos meus avôs. A casa ainda estava lá. Mas eles não. O tempo, esse câncer maldito, os carregou. Por que chorar? A morte é inevitável. Após enxugar minhas lágrimas, abri os olhos. Fui surpreendido. Foi quando aprendi que o mundo não pára para que a gente se sinta melhor. Minha nossa! Como meus dois filhos cresceram! O mais novo acabara de passar no vestibular. O mais velho já estava se formando e pretendia se casar. Lembrei de todas as vezes que não dei atenção ao engatinhado dos meus garotos, e que recusei levá-los ao parque. E, mais uma vez, era tarde demais para se arrepender.

Ao entardecer, cada hora parecia mais curta. O câncer do tempo impiedosamente me envelhecia, meus cabelos embranqueciam e caíam. E lá estava o sol, que há pouco nascia em minhas costas, bem na minha frente. Mas sua luz aos meus olhos cansados não maltrata mais. E tudo começou a escurecer, novamente. Tudo isso me lembrou o começo. Porém, como uma criança eu me enganei. Era o fim. Você pode nunca ter percebido, mas o fim e o começo estão mais próximos do que você imagina.

Enfim, chega o crepúsculo. Estou trêmulo de frio. Trêmulo de medo. Medo do escuro. Feito um garotinho. O sol está afundando! Não posso ser engolido pelas trevas! Então eu corro, e corro, para alcançar o sol. Em vão. E consciente de que não vou alcançá-lo, eu desisto. Resolvo deitar em minha deliciosa rede, fumar o meu cigarro. Fumar a minha morte.

Pela manhã, aprendi que não existe bicho-papão. Logo vi que era engano. Ele apenas não é como eu imaginava que fosse. Confie em minha palavra, ele existe e o persegue por toda a sua vida. Cabe a você encontrá-lo e enfrentá-lo. Atente-se para o que eu disse. Enfrentá-lo. Não significa que você chegue a vencê-lo, pois é bem improvável que isso aconteça.

Aqui estou. Teoricamente confortado. Rede. Campo. Palmeiras. Cigarro. Mal sabe você o quanto é imenso o pavor que corre em minhas veias. Contudo, afogando minha depressão em música, aprendi algo que jamais esquecerei. É preciso encarar o diabo cara a cara, mesmo sabendo que ele sempre dará a última risada. O diabo. O bicho papão. O medo.

Sentindo o calor de dois lábios em minha testa, fico de pé e beijo carinhosamente minha linda esposa. Quem sabe este seja o último. Ou o penúltimo, talvez.

Num abraço, olhando para o horizonte no silêncio do crepúsculo, sinto o cheiro do delicioso jantar que está por vir, e os dedos quentinhos de minha mulher tocando minhas mãos entorpecidas. Pelo frio. Pelo medo.

7 comentários:

Ramon =] disse...

Dificil é saber quando o texto nao se refere a vc ;p

seus medos irão acabar antes mesmo de vc ter seus dois filho ^^

;*

Gustavo Monteiro disse...

Muito legal mesmo! As metarforas são bem bacanas e se eu não me engano o nome do conto vem de uma musica, nao eh?! Não lembro qual. Contos cada dia mais perfeitos, elaborados... Bem legal a comparaçao do dia com a vida, apesar de estar um pouco manjado! Prabens mesmo!

fwz!

Gustavo Monteiro disse...

Muito legal mesmo! As metarforas são bem bacanas e se eu não me engano o nome do conto vem de uma musica, nao eh?! Não lembro qual. Contos cada dia mais perfeitos, elaborados... Bem legal a comparaçao do dia com a vida, apesar de estar um pouco manjado! Prabens mesmo!

fwz!

Lari disse...

hahahaha
Eu sou suspeita a comentar. :)
Eu sempre gosto dos seus textos. ;P

;***

henrique disse...

Ficou fodovski!!
Vai ganhar dez ^^

**Carol** disse...

muiito legal o texto Rafa...
super profuundo!
parabéns viiu!
torço por vc !

beiijaO!

Anônimo disse...

Até senti a amargura do tempo escorrendo pelas suas mãos queimando cada mícron do seu cigarro.