Sono profundo


Desperto do abismo
De meus sonhos sem sentido
E deitado sobre a grama
Na margem de um rio
Admiro as estrelas

Com meus dedos
Toco-te os pés
E escorregando pelas tuas coxas
Encontro tuas mãos
Aproximo nossos corpos
E te carrego nos braços

Deito-te num bote
E me ponho a remar
Pelas águas deste rio
Límpidas e serenas
E com uma gota entre os lábios
Tu nos iluminas

Abençoados pela lua
Nos aquecemos com um beijo
E alucinado com teus suspiros
Eu me afogo em teus cabelos

Suspirando em teu pescoço
De olhos entreabertos
Eu me entrego às águas
E entre um sorriso e um abraço
Tu vens de encontro com meus braços

Extasiados com o veneno do amor
Afundamos sem medo
Agora somos apenas um
Na mais infinita eternidade.

Devaneios de uma saudade


Em alguma tarde de dezembro
Em algum lugar no fim do mundo...
Estou aqui de braços cruzados
Esperando o trem das sete

Estou sem voz
Estou sem fé
E em minha mente
Tu me envenenas
Com teu sorriso
Com tuas mãos
E com tuas frases de amor

Numa tarde de dezembro
Ponho-me a caminhar descalço
Nessa terra de ninguém
Sinto o vento cortar-me a face
Sangrando-me uma lágrima

Em alguma tarde de dezembro
Enquanto as areias desérticas
Maltratam-me os pés
Palavras soltas e ao avesso
Fogem dos meus lábios

Louco e desapontado
Eu berro teu nome,
Recito-lhe um poema
Estendo-lhe a mão
Caminho sem destino
Canto-lhe uma canção

Numa pequena
Fração de tempo
Observando as nuvens
Lembro-me do teu nariz
Teus braços e mãos
Teus joelhos e quadris
Teus lindos pés!

E admirando o pôr do sol
Corro sem destino
A mil pés por segundo
Sedento de teu cheiro
De tuas unhas e dentes...
De tua carne!

Confissões da loucura


Ao abrir os olhos, suspirei
E pus-me a caminhar
Entre as árvores
Sem destino,
Sem nome,
Sem lenço.

Ajoelho-me perante um rio
E lá estão meus risos
E mágoas
Meu presente
Meu passado
Meu futuro.

Ah, se eu pudesse
Mergulhar neste rio novamente!
Para ao menos te olhar nos olhos
Tão negros e pequeninos
Para ao menos tocar-lhe os cabelos
Tão ruivos,
Tão macios,
Tão teus!

Mas eu não posso, meu bem!
Fomos separados
Pela mais bela das imortais
Separados pelo silêncio amargo
Separados, minha amada...
Pelas minhas próprias mãos

Trêmulo, derramo uma lágrima...
Uma lágrima de dor,
Cortando-me os olhos,
Uma lágrima de arrependimento,
Esmagando-me ao chão
Talvez a minha última lágrima.

Mas agora não há mais o que temer...
O destino me espera
Detrás de uma porta,
Na outra margem do rio.

Posso até sentir as chamas
Fervendo-me a pele...

Você e que exército?


Venha, venha,
Você acha que me enlouquece?
Venha, venha,
Você e esse exército!
Você e seus amiguinhos!

Venha, venha,
Sagrado Império Romano,
Venha se você acha,
Venha se você acha,
Que você pode conosco,
Que você pode conosco.

Você e esse exército?
Você e seus amiguinhos?
Você se esquece tão fácil...

Cavalgamos esta noite
Cavalos fantasmas.

por Thomas Yorke (Radiohead)

Pequeno homem sendo apagado: Quarta parte (final)

Sentiu uma tremenda dor, que se alastrou por todo o corpo. Rolou pelo chão, gemendo.
- Não se preocupe, ficaremos bem. – cochichou olhando para o corpo do amigo
A sensação era semelhante à de vários choques elétricos sucessivos. Sentia também como se várias agulhas já tivessem sido injetadas em seu corpo antes. Suspirou.
Começou a ouvir vozes: “Calma, meu filho, vai dar tudo certo.” “Tenha paciência, senhor, ele vai ficar bem”.
- O que será isto? – sentiu-se incomodado – Parem de gritar! Quem está aí?
O rapaz tentava levantar-se em vão. Todas as imagens em sua volta começavam a sumir aos poucos. “O que está havendo”? Perguntava-se. Fixando seu olhar no casal Luan chorou. E num piscar de olhos tudo em sua volta sumiu de vez. Luan, naquela noite, nunca havia se sentido tão bem quanto naquele instante; mas por pouco tempo.
“Vamos, Juan! Acorde, meu filho!”
- Pai? É você quem está aí? – perguntou o rapaz surpreso
Não se ouviu resposta. O silêncio e a escuridão predominavam. E foi rompido com um choque elétrico contra seu peito e um grito. Tremeu. Sua respiração cessou. Lentamente seus olhos se abriram. Ele estava agora deitado sob a cama de um hospital, ligado a vários aparelhos. Vários médicos. Seu corpo, dolorido. Seus olhos, cheios de lágrimas. Seu pai, aos prantos. Abraçando-lhe a mão contra o peito, vestido com um simples casaco vermelho.
- Juan, saiba que teu pai aqui te ama.
- Senhor, ele perdeu muito sangue, por isso acho que...
Lentamente as palavras embaralhavam-se na mente do filho, não conseguia mais respirar e seu coração batia cada vez mais devagar...
Uma mulher o observava em silêncio, como se estivessem ali apenas eles dois.
- Quem és tu, bela dama, que no vago do silêncio me observa, e fitando-me com teu olhar me paralisa, fazendo-me transpirar e viajar pelo mais distante infinito? – disse-lhe Juan cerrando os olhos cansados, movendo apenas os lábios...

***
4º dia
Juan acorda, ainda naquela cama. Todas as dores, a agonia, a tristeza... Todas elas sumiram com o vento. Levantou-se. Já não havia mais aparelhos que o impedissem de fazê-lo. Caminhou observando tudo em sua volta. Ninguém por perto.
- A quem procuras, amigo? – soou uma voz
- Quem está aí?
- A chave da fechadura da tua porta... Sou a tua face enquanto dormes... Somos amigos até a morte.
- Luan? – admirou-se ao olhar para trás.
- E qualquer caminho que tomes, estarei lá, abrindo o teu crânio, estarei lá, subindo pelas paredes.
Sim, era Luan. Sorrindo, Juan aproximou-se e o abraçou. Abraçou forte aquele que sempre esteve ao seu lado. Seu melhor amigo. Seu eterno amigo: Luan, seu subconsciente.
E juntos retiraram-se.
Sem pressa.
Sem dor.
Sem medo...
Agora sim. Tudo corria bem. Já não se podia mais provar do fruto proibido. Sim, aquela maçã: o pecado. O amor!
Não havia mais nada a temer nem a duvidar.
***
Chovia forte. Eram cerca de quatro e meia da tarde. Ruth caminhava pacientemente segurando seu guarda-chuva vermelho. Ao passar por um poste comoveu-se. Um homem estava ali. Trajava um simples casaco vermelho, pés descalços, calça jeans. Tremia com o frio.
- Senhor, o que fazes aí?
- Juan... Juan...
- Venha comigo, eu posso ajudá-lo...
- Por que, Senhor? Por que você fez isso? - falava ele baixinho
Ruth, sentindo muita pena, imediatamente o socorreu. Pegou-lhe a mão. Resolveu levá-lo ao hospital mais próximo. A moça o conduzia. O pobre indivíduo apenas cochichava.
- Juan... Juan... Te amo... Meu filho.

Pequeno homem sendo apagado: Terceira parte

3º dia
Terça-feira pela madrugada. Juan já não estava no mesmo lugar. Acordou pensativo. Tinha vontade de voltar para casa. Abraçar seu pai. Fixar seu olhar mais uma vez no retrato de sua falecida mãe. Beijar novamente Clarissa... Ah, como ele desejava tudo isso! Era angustiante não poder fazer nada do que desejava naquele exato momento. Como se sentia infeliz! Se naquele instante ele tivesse uma arma em mãos, certamente cometeria uma loucura. Sentado no chão arenoso observou por alguns minutos as poucas estrelas contidas naquele céu sem lua daquela madrugada mórbida. Ouviu-se um ruído? O que seria? Não seria um ser humano, pensou. Resolveu continuar ali sentado, imóvel. Porém os ruídos o deixava inquieto. Levantou-se e pegou uma pedra. Sentiu-se mais seguro. O barulho se aproximava, deixando o jovem mais nervoso. Juan logo distinguiu: Era um rugido... Semelhante ao de um predador bastante faminto. E agora?
Resolveu o rapaz permanecer imóvel, esperando a aparição do animal.
- Apareça, maldito! Você me quer? Então venha, porra, e acabe comigo. Eu estou esperando!
Inesperadamente um lobo atacou-lhe pelas costas, mordendo-lhe o ombro. Juan berrou alto. Esforçou-se para alcançar a pedra que ele derrubara ao ser surpreendido. Conseguiu. O rapaz, usando a rocha, golpeou o canino na face. Juan conseguiu erguer-se e se afastar. Cambaleou. Sentia-se fraco, uma presa fácil. Olhou fixamente nos olhos daquele ser, que estava extremamente esfomeado. Nem se podia imaginar o quanto. Sua saliva escorria por sua mandíbula, descendo à ponta da língua, gotejando até chegar ao chão. Extremamente trêmulo, o jovem afastou-se vagarosamente. Atirou a pedra; esta acertou em cheio o focinho do lobo, que latiu de dor. Juan resolveu correr. O morro onde ele estava era extenso e não era muito alto. Porém possuía poucas árvores, deixando o lobo em vantagem. Correu. E o lobo atrás dele. A cada latido ouvido Juan acelerava mais ainda. Não havia tempo nem para pensar. Ao perceber que estava sozinho Juan parou de correr. Desta vez ele escutou um berro. Não era de um animal qualquer. Era de um ser humano. Um ser humano familiar para Juan.
- Clarissa?!
- Socorro!
Sim, era ela. A moça que Juan mais amou em toda a sua vida. Onde está ela? O que está acontecendo a ela? Novamente Juan tornou a correr, à procura de sua amada.
- Juan! Onde está você?
O grito de desespero. O coração do jovem estava a mil! Pôs-se ele a chorar. Mesmo sabendo que esta não era a melhor solução.
- Clarissa!
Ele percorria o morro por todos os cantos, mas nenhum sinal visível de Clarissa. Já não sabia mais o que fazer.
- Juan! Calma! Vai dar tudo certo. – soou uma voz pacífica
Luan estava atrás dele. Em pé sobre uma rocha.
- Desgraçado! - berrou Juan batendo as mãos fechadas no peito do amigo. – Onde está Clarissa?
- Como você não sabe? – gritou furioso
- Juan. Vai dar tudo certo. Confia em mim. A única coisa que posso fazer por você é orientá-lo.
- Juan! Me ajude! Eles vão me matar!
- Vamos, garoto! O grito da moça vem daquele lado. Corra! – disse Luan apontando para o seu nordeste.
Luan estava certo. À medida que Juan corria naquele sentido, os berros eram ouvidos em intensidade maior. E finalmente a moça foi encontrada. Quase nua. Três lobos a atacavam. Porém, desta vez foi diferente. Eram lobos mais ferozes, mais vorazes. Pareciam estar endiabrados! Mas não havia tempo. Logo arrancou um galho de uma das poucas árvores contidas naquela região e avançou sem medo. Os três animais perceberam a presença do inimigo e resolveram atacá-lo. Lentamente eles aproximavam-se. Olhos avermelhados, pêlo cinzento, dentes afiados. Entretanto, antes que pudesse fazer algo, Juan sentiu-se mal, zonzo. Mais uma vez. Tudo parecia girar. A ferida do seu braço doía mais. Caiu de joelhos e respirou fundo. Olhou para os lados. E lá estava Luan novamente. Sentado sobre uma pedra, observando tudo pacificamente.
- Calma, meu amigo. Vai dar tudo certo.
- Desgraçado! Por que fica aí, sentado, olhando nossa desgraça? – chorou mais uma vez.
- O que eu podia ter feito já fiz, meu caro. Antes mesmo de você me encontrar... Frente a frente.
Pobre Juan. Não estava entendendo mais nada. Nada parecia fazer sentido. Fechou os olhos. Ao abri-los notou algo extremamente estranho. Os lobos eram agora seres humanos! Assustado, arrastou-se para trás.
- Desistiu de brigar, valentão? – disse um dos três homens
- Por que vocês fizeram isso a ela? – soluçou Juan
- A culpa é de vocês! Nada estaria assim se vocês tivessem feito apenas o que pedimos. – disse o primeiro homem
- Onde estão o Pedro e a Ana?
- Um dia você vai reencontrá-los, mas não nesse mundo.
Essa frase ecoou na mente do pobre rapaz. Parecia um pesadelo. Estava difícil distinguir o real do imaginário. Tudo aquilo parecia estar realmente acontecendo. Mas se fosse tudo imaginação? Um terrível pesadelo, quem sabe...
O segundo homem olhou nos olhos de Clarissa, que trêmula observava tudo. Aproximou-se da moça, puxou-a pelo braço e depois a empurrou, esta que caiu próxima ao amado. E disse:
- Vamos, doçura, dê adeus a ele. Daremos a vocês o direito do último beijo.
Lentamente os lábios se aproximaram, e simultaneamente as lágrimas escorriam em suas faces. Mas este não era o fim que Juan desejava. Havia ele avistado uma pedra de tamanho e massa suficiente para ao menos desmaiar um deles, caso acertasse-o na cabeça. E assim foi feito. Enquanto o casal se beijava, Juan rapidamente esticou o braço, apanhou a pedra e a lançou, acertando em cheio a testa do primeiro homem, que caiu desmaiado no chão.
- Ingrato! Permitimo-lhes o último beijo e você agradece desta forma. Fim de papo. Comece a rezar. Você será o primeiro.
- Não! Por favor, deixe-o vivo! Por tudo que é mais sagrado! – implorou Clarissa
- Cale-se! – gritou o segundo homem dando-lhe um tapa a face – Isso é o que vocês recebem por mexerem com a gente. – e retirou do bolso um revólver
- Deixem eles aí. O choque emocional em que eles se encontram não vai permitir que eles lembrem dos nossos rostos. Já fizemos demais. – disse o terceiro homem
- Se não quiser assistir à cena vá embora. Aguarde-nos no carro roubado.
E assim foi feito. O terceiro homem retirou-se sem olhar para trás, levando consigo o homem que fora atingido por Juan.
- Será que aquele simples Celta preto valia tanto? Pensei que quatro vidas não tinham preço, mas já que vocês pediram... Antes de matá-los quero que saibam meu nome: Francisco. Vosso carrasco. À pedido de meu amigo Marcelo deixarei a mocinha viva.
Logo ele apertou o gatilho, ecoando o estrondoso barulho dentre os morros.
- Clarissa, por que comeste do fruto proibido? – lamentava Luan, que apenas observava.
- Clarissa! Não! Por que você fez isso, meu amor! Por que não me deixou morrer?
A moça se colocara na frente do amado. O tiro acertou em cheio seu seio esquerdo, bem próximo ao coração.
- Maldição! Garota estúpida! Eu ia te deixar viva! Perdoe-me, meu caro, mas cumprirei o prometido. Adeus. Sangrarás até a morte!
E foi dado o segundo tiro, que acerto no ombro de Juan. Imediatamente Francisco retirou-se correndo em direção ao carro roubado, no qual ele partiu velozmente.
- Agora somos um só, na mais eterna paz... Te amo, Clarissa.
A doce jovem respondeu-lhe com um sorriso. Juan deitou-se e pôs a cabeça da amada sobre seu peito. E fecharam os olhos.
Luan entristecido aproximou-se, atirou-lhes uma rosa vermelha e partiu. Dentre os dois morros Luan, Clarissa, Juan, a rosa... E uma maçã escarlate, nas mãos de Clarissa.
Luan caminhou alguns metros... E caiu...

***

...

Pequeno homem sendo apagado: Segunda parte

... eram eles fisicamente idênticos.
- Minha nossa! Como isso é possível?
- Mas por que a surpresa, companheiro? Parece até que não nos conhecemos.
Juan, boquiaberto, aproximou-se de Luan e tocou-lhe a face. Não acreditava que alguém pudesse ser idêntico a ele.
- Tenho que ir, amigo.
- Eu vou com você. Eu não quero ficar aqui sozinho.
- Não, companheiro, você não pode ir comigo.
- Por quê?
Antes que fosse respondido Juan sentiu uma leve tontura, que foi se intensificando aos poucos, impossibilitando-o de permanecer de pé.
- O que você fez? – gemeu o rapaz, que caiu nos braços de Luan.
- Calma, vai ficar tudo bem.
- Pro... me... te...?
Juan desmaiou nos braços de Luan, que o beijou no rosto e o deixou cair no chão.
- Prometo. – e saiu

***

2º dia
Segunda pela manhã. Juan abriu os olhos lentamente. Não estava mais no hospital. Nem em casa. Estava deitado sobre uma grama verde. Ficou pensando no porquê de ele estar ali naquele momento. Ao teu lado se encontrava um belo violão. Sorriu. Pegou carinhosamente o instrumento e pôs-se a cantar baixinho suaves canções. Lembrou-se de Clarissa, sua amada. Onde ela estaria naquele instante? Após alguns minutos Juan lembrou-se do dia anterior e de tudo o que acontecera neste. Olhou para os lados e não encontrou nenhum sinal de vida humano. Levantou-se. Iniciou uma lenta caminhada, sem rumo. Enquanto caminhava olhou para o chão e notou que havia sobre este, ao lado de uma formosa árvore, um esqueleto de peixe. Estranhou. Andou mais um pouco e avistou um riacho. Sorriu. Amava a natureza. Quando estava em contato com ela sentia-se extremamente confortável. Sentiu o cheiro de terra molhada e admirou as borboletas que voavam dentre as árvores. Espreguiçou-se. Naquele momento todos os seus problemas desapareceram! Já fazia certo tempo que ele havia se sentido tão bem como naquele instante. Tirou a camisa vagarosamente pensando em mergulhar. Ajoelhou-se sobre a margem e observou seu reflexo na água límpida. Levantou-se e terminou de desabotoar sua camisa. Abaixou-se e retirou também sapatos e meias. O ar fresco refrescava-lhe corpo e alma. Fechou os olhos e abriu os braços sentindo-se completamente livre. Por alguns instantes Juan viajou a outro mundo! Estava naquele lugar apenas fisicamente. Abriu os olhos, respirou fundo e pulou na água fresca. Ergueu os braços e gritou alto, como nunca havia gritado antes. Mergulhou um mergulho demorado, e começou a nadar admirando o que havia naquele riacho, todas aquelas maravilhas marinhas.
- Purificando a mente, meu caro? – Luan o observava caminhando sobre a margem
Juan não demonstrou felicidade alguma ao ver quem estava ali. Saiu da água e olhou seriamente para Luan.
- Por que você vive a me perseguir, infeliz?
- Nossa! Como és mal-educado. Deveria me agradecer por estares aqui. Sei que precisamos purificar nossa mente às vezes. Por isso lhe trouxe aqui.
- Problema o seu. Nunca lhe pedi nada. E porque deixou aqui?
- Você que pediu, ora.
- Cala-se seu cínico! – berrou Juan – Qual a finalidade desta sua brincadeirinha? Quem é você? O que é você?
- Eu sou quem você quiser que eu seja.
Juan suspirou, vestiu suas roupas e saiu, ignorando a presença do outro indivíduo.
- Para onde vais, criatura?
Sem olhar para trás Juan continuou caminhando.
Passou entre árvores, avistou de longe uma bela macieira. Direcionou-se a esta. Ela era realmente belíssima!
Luan, que vagarosamente se aproximava, gritou:
- Afasta-te daí, Juan! Não comeis do fruto proibido!
Sem dar ouvidos a ele, Juan tentou alcançar a maçã mais vermelha daquela árvore.
- Eu posso te ajudar? – ouviu-se uma voz feminina
À primeira vista o jovem não acreditou no que via. Era Clarissa, sua amada. Estava ali, lado a lado com ele. Ao olhar nos olhos dela seus olhos se encheram de lágrimas. Lentamente olhos e lábios se aproximavam.
- Clarissa, te esperei tanto tempo.
- Mas agora somos um, na paz mais eterna. Beije-me, Juan.
E os dois se calaram no ardor daquele beijo. Após o ósculo Clarissa ofereceu ao amado aquela maçã vermelha, encostando-o nos lábios o fruto. Ele então, mordeu este a olhando nos olhos. Pouco depois Juan sentiu-se mais fraco.
- O que foi, meu bem? – preocupou-se Clarissa
- Está tudo bem.
As pernas do rapaz começaram a estremecer, impossibilitando-o de permanecer em pé. Logo o jovem caiu.
- Juan, diga-me! O que está havendo? Oh céus!
- Clarissa, você me ama?
- Sim! Lógico que eu te amo!
- Então coma deste fruto e venha comigo.
- Mas para onde?
- Para longe daqui.
Ligeiramente Clarissa mordeu o fruto e segurou a mão do seu amor. Ajoelhada ela o beijou novamente. Após sentir-se tonta deitou-se com a cabeça sobre o peito dele. E juntos descansaram debaixo da formosa macieira.
Luan abanou a cabeça ao olhar para o casal. Atirou uma rosa vermelha no peito dele e saiu... Sem rumo.

***

3º dia...

Pequeno homem sendo apagado: Primeira parte

Chovia forte. Eram cerca das cinco horas da tarde. A jovem Ruth caminhava pacientemente dividindo o espaço de seu guarda-chuva vermelho com um homem que caminhava lentamente. Andavam em direção ao hospital mais próximo. A moça não se incomodava com a lama que sujava seus pés, nem com os carros que a banhavam, apenas caminhava conduzindo o velho homem, que também não demonstrava impaciência para com a garoa.
Enfim chegaram ao hospital. A jovem limpou seus pés sujos no tapete e pediu para o homem aguardá-la, pois ela iria chamar alguém que pudesse ajudá-los. Conversou por alguns minutos com a recepcionista e esta pediu que Ruth fosse um pouco paciente, pois em breve ela seria atendida.
Não se passaram dez minutos e um médico aguardava-os frente à sua sala. Lentamente o velho homem levantou-se e foi vagarosamente conduzido ao médico.
- Boa tarde, senhorita, sou o Dr. Márcio, em que posso ajudá-la?
- Boa tarde. Encontrei esse homem na rua, sentado frente a um poste. Ele não me parece bem, por isso o trouxe aqui.
- Hum... Qual o seu nome, senhor?
O homem aparentava ter cinqüenta anos, trajava um casaco vermelho e rasgado, calça jeans e estava de pés descalços. Este não deu atenção a Márcio.
- Senhor, olhe para mim, e responda ao menos qual é o seu nome. – tentou novamente o médico.
Tinha ele um olhar centrado no vago. Seus lábios pareciam dizer alguma coisa, mas não se podia ouvir sua voz. O clínico abaixou-se um pouco, aproximando-se mais do misterioso indivíduo.
- Juan... Juan.
- Juan?! Este é seu nome? – perguntou Márcio
- Juan. – repetiu ele
- O que houve contigo?
- Juan... Juan...
Ruth, que observava tudo calada, de braços cruzados e encostada na parede pergunta o que se pode fazer por aquele cidadão e o doutor balança a cabeça:
- Nada... – lamentou Márcio – Leve-o a um hospital da rede pública, lá os médicos saberão como cuidar dele, levando-o para onde for necessário.
- Essa é a única solução, doutor?
- Sim. – afirmou Márcio vestindo seu jaleco branco. – Eu posso levá-lo até lá, se quiser.
- Sério? – sorriu a moça. – Posso ir com você?
- À vontade.
Chegando à recepção Márcio alegou não demorar.
Juntos, Ruth e o homem saíram do hospital, entrando em um Palio vermelho, no qual foram levados por Márcio ao Hospital São Marcos, o melhor hospital público daquela cidade.


***

Sábado à noite. São 20h. O despertador toca, trazendo o jovem Juan do mundo dos sonhos ao mundo real. Ao olhar as horas rapidamente ele se alerta. Tem um compromisso e não costuma se atrasar. Bastante apressado ele toma banho, veste-se e perfuma-se com uma das suas colônias preferidas. Penteou seus cabelos negros os quais trata com bastante cuidado. Estava pronto. Ouve-se uma buzina. Era Pedro, seu melhor amigo, que o esperava em seu Celta preto. Estavam animados para curtir à noite.
Não demoraram a chegar. A boate estava lotada. As namoradas deles esperavam-nos em pé frente à casa de shows. Cada um abraçou sua amada, dando um beijo demorado. Em seguida os quatro curtiam na pista de dança. Beberam, dançaram, beijaram. Tudo que a maioria dos jovens modernos mais gosta de fazer.
Já era tarde da madrugada. Vieram todos juntos no carro de Pedro. Juan dormiu no caminho.

***

1º dia
Domingo à tarde. Juan acorda em um hospital. Assusta-se. Levantou-se e olhou em volta. O silêncio reinava no local. Caminhou vagarosamente entre as camas. Olhando para os lados procurava uma porta. Facilmente encontrou, porém surpreendeu-se: a porta não abria.
- Desse jeito você não sairá daqui tão cedo. – ouviu-se uma voz
Apavorado, o jovem Juan observou cuidadosamente tudo em sua volta. Não avistava ninguém por perto.
- Quem está aí?
- Está com medo, Juan?
Ao ouvir seu nome, o jovem sentiu um breve frio na barriga. Quem é esse sujeito? Seja quem for este alguém já lhe causou medo. Procurou por perto uma tesoura ou qualquer coisa que o ajudasse a se defender.
- Hahaha... Calma, meu companheiro, não te farei mal algum.
- Então porque se esconde?
- Tenho mania de me esconder. E você nunca percebe isso.
- Como assim? Você nem me conhece.
- Eu te conheço melhor do que você imagina.
- Tá brincando... – ri Juan ainda com medo – Vamos, pára de brincar e mostra a cara.
Ouve-se de longe passos lentamente se aproximando. Juan espera pacientemente a aparição do misterioso rapaz, que não tarda a mostrar-se. O ruído da maçaneta chamou a atenção de Juan, que vidrou os olhos na porta. Lentamente a porta se abria, e o ranger desta incomodava o rapaz, que estava impaciente.
- Pronto, Juan, aqui estou eu.
- Hum... Sabes meu nome. Diga-me o teu.
- Luan. Nomes parecidos, não?
Cada passo a frente dado pelo rapaz de nome agora revelado era causa de mais tremor das mãos de Juan, que suava cada vez mais. A luz das lâmpadas iluminava bem lentamente o corpo de Luan, que ao ter sua aparência finalmente revelada, surpreendeu imensamente o outro rapaz...

Musa platônica


Algum dia me disseste
Sem mover teus lábios
Tudo o que eu precisava sentir
Para sorrir novamente.

Dias e noites voavam
Ao som de tua voz
E sobre as asas do tempo
Eu viajava em teu olhar.

Risos e prantos...
Vivenciamos ao som do luar
Deitados na areia
Sentindo à pele a brisa do mar.

Indo e vindo pelas nuvens
Te encontrei em sonhos
Em que trajavas tua pureza
E descalça me abraçavas.

A luz que toca os teus lábios
Desliza sobre teu corpo
Dançando sobre tuas curvas
Escorregando sobre teus braços.

Nada a ti se compara
Musa que ri e chora
Deusa de carne e osso
Dona da minha aurora.

As tuas mãos...
Quero sempre tocá-las
Com teus pés...
Quero sempre caminhar
Cair contigo,
Levantar-me contigo
Sorrir contigo,
Chorar contigo,
Ver o dia nascer e a noite cair
E poder ter a certeza
Que jamais verei você partir.

Beleza imortal


Quem és tu,
Que montada em teu cavalo me observa
E fitando-me com teu olhar me paralisa
Fazendo-me transpirar e viajar
Pelo mais distante infinito?

Quem és tu, senhorita,
Que com apenas teu caminhar
Amedronta a todos os mortais
Que rezam pela sua ausência
Mas sabem que um dia tu haverás de chegar?

Quem és tu, bela dama,
Que cavalgando pelo além
Assiste toda a desgraça dos miseráveis
E com um golpe de misericórdia
Livra-os de todo o sofrimento?

Quem és tu, guerreira,
Que com tua espada e teu cavalo
Liberta os infelizes das dores vitais
Cantando a mais antiga das canções
A mais antiga e poderosa canção
Que nos dá a graça de um sono eterno?

Apenas sei que és o segredo da vida
Porque sem ti ela não existiria
Nem sentido algum ela teria.

E que teu tenebroso olhar
Frio e misterioso
É resultado dos infinitos anos de solidão
Em que esteve presente entre os vivos,
Em que foste a rainha dos mortos.

Serena


Eu conheço teu olhar
Solitário e vago no infinito
Teus olhos azuis vidram em mim
Como se eu fosse apenas uma fantasia.

Tuas mãos... Pálidas e macias
Gélidas elas me tocam
Silenciosamente
Como se eu fosse apenas uma fantasia.

Teu perfume jamais eu esquecerei
Mais suave e doce que um paraíso de rosas...
Rosas agora e eternamente murchas
Murchas por sede de sentimento.

Nunca me disseste
Ao menos meias verdades
Tua ausência me fere, me esmaga no chão
Sem dó nem piedade você sorri
E friamente se despede.

Como se eu fosse apenas uma fantasia.
Como se eu fosse apenas uma pequena fantasia.
Como se eu fosse tua única fantasia.
Como se eu fosse tua mais distante fantasia.

Quando na verdade
Sou teus sentidos, pensamentos e emoções
Vividos num cemitério
De pequenas fantasias.

Sem surpresas


Um coração
Que se enche como um aterro sanitário
Um trabalho que te mata lentamente
Feridas que não cicatrizam.

Você parece
Tão cansado, infeliz.
Derrube o governo!
Eles não, eles não falam por nós.

Levarei uma vida tranqüila
Um punhado
De monóxido de carbono.

Sem alarmes nem surpresas,
Sem alarmes nem surpresas,
Silêncio! Silêncio!

Essa é minha dor fatigante final,
Meu último suspiro.

Sem alarmes nem surpresas,
Sem alarmes nem surpresas,
Por favor.

Uma casa tão linda!
Um jardim tão belo!

Sem alarmes nem surpresas (leve-me daqui)
Sem alarmes nem surpresas (leve-me daqui)
Se alarmes nem surpresas, por favor.

por Thomas Yorke (RadioHead)

Metamorfose constante


Ilusões quebradas...
Metamorfose constante...
Não és mais a mesma.

Mudança traiçoeira...
Conseguiste facilmente mudar
Apenas lamento
Por que sei que não voltarás

Não sei por que queres só sangrar
Se não sabes o que é o vermelho
Grita e chora lágrimas de vidro
Em frente a teu espelho.

Por que tens essa angústia dolorosa
Se não queres se libertar?
Por que viver é tão ruim assim
Se um dia tudo vai acabar?
Por que derramar tantas lágrimas
Se todo sofrimento é em vão?
Nasceste logo morrerás mais tarde.

Descontrolada por natureza
Corroída por falsas ilusões,
Entre as meias verdades e as contradições;

Surpresa alguma...
Nas entrelinhas da realidade
És trancada por todos dentro de porões

Não sei por que queres só odiar
Se nunca provou do amor
Enfia facas dentro de seus punhos
Mas você nunca sentiu dor.

Retrato falado


Você vive entre muralhas
Mas ao serem derrubadas elas se reerguem
Você senta aborrecida
Chora e vocifera

Você é tão linda
De pé ou de joelhos
Desinfetada
E ansiosa por aprazer

Às vezes você se aborrece
Às vezes você se arde
Deus abençoou sua alma
Mas quando Ele lhe estende a mão
Você já partiu
Ao contrário de nosso pai
Você vive mudando

Cada vez que você deita e chora
Isso me destrói
Tento me controlar
Mas isso me destrói

Você ajuda as pessoas
E elas tentam lhe passar pra trás
E para se acalmar
Você senta e escreve

Adaptação de Sulk, música do Radiohead, em homenagem a minha irmã.

Luíza: Parte 4 (Final)

A freira olhou para cima do guarda-roupa e assustou-se: Era Luíza. Mas não era apenas uma, eram quatro “Luízas”: uma recém nascida, outra pequenina de apenas quatro anos, outra com um terço nas mãos, esta com treze anos, e a última era Luíza depois de morta, pálida, com os cabelos em frente a seu rosto e um crucifixo em seu pescoço.
- Quem são vocês? O que querem?
- Somos o nascimento, a infância, a adolescência e a morte. – disse a quarta Luíza
As três primeiras imagens desapareceram e a última prosseguiu:
- Esqueceu de mim, vovó? Há menos de um ano você dizia que me amava como amaria uma filha e que nunca me esqueceria. Pelo jeito você mentiu.
- Não estou entendendo. Diga-me quem és, por favor.
- Sou Luíza, a pequena freira que foi assassinada dentro de um elevador. Não está lembrada? – disse Luíza com uma voz rancorosa
- Filhinha! Você está viva! Desça já daí e me dê um abraço! – lacrimejou Heloísa
- Falsa! Você não me ama! Não deve nem mais lembrar quem sou eu!
- Não diga isso, querida! Você não sabe o quanto eu sofri após a sua morte.
- Duvido. Está tentando me enganar assim como o Lucas me enganou.
- Quem é Lucas?
- Não posso te contar. Se fizer isso nunca descansarei em paz.
- Este homem que você está falando é o assassino, não é? Onde está o desgraçado? Diga-me! – berrou a carmelita
- Não posso.
- Por que ele fez isso?
- Vocês me reprimiram! A culpa é dele e de todos vocês! Se vocês não reprimissem seus ditos filhos meu fim poderia ser outro! – entregou-se a menina ao choro – Eu poderia estar viva...
Ao terminar de falar a garota fez cara de espanto
- Cuide bem de suas crianças! Não deixe que elas terminem iguais a mim! Por favor, dêem a elas o direito de sentir prazer. De realizar seus desejos... Por favor. – chorou mais ainda.
- Por que está dizendo isso?
- Ele está chegando.
- Quem? – desesperou-se Heloísa
- Ele!
Antes que a senhora pudesse obter alguma resposta a imagem da jovem desapareceu e ouviu-se um batido na porta do quarto. Com o nervosismo à flor da pele Heloísa cobriu as crianças com um cobertor. Devagar ela abriu a porta. Estava muito escuro lá fora. Antes que ela saísse do cômodo sentiu o silêncio ser quebrado por uma voz sarcástica:
- O que fazes acordada a essa hora, Heloísa? Está sem sono?
- Quem está aí fora? – apavorou-se a freira
Ninguém respondia. Lentamente a porta era fechada e o pensamento da mulher era tomado pelo medo. Afinal, o que estava acontecendo? Nada parecia se encaixar. Cabisbaixa e pensativa, tudo na cabeça dela parecia embaraçado. Estaria ela ficando louca? Como se não bastasse tudo isso, percebeu-se a presença de uma quarta pessoa no dormitório.
- Parece cansada. Por que não tira um cochilo? Tem medo de este ser o seu último?
- Diga-me apenas quem és e vá embora. – disse a carmelita sem olhar para trás
- Ué! Sou um padre, ora. O que queres mais saber?
- O que você faz aqui?
- O mesmo que você, querida. – sorriu o homem
- Aqui não moram padres! Acha que eu sou idiota o suficiente para cair nessa piada?
- Como és corajosa! Sinto firmeza em sua voz.
- Vá embora! – virou-se ela e o encarou – Mas antes me diga quem é.
- Sou Padre Lucas, e a bela senhora deve ser Heloísa, estou certo?
- Lucas... Lucas... – sussurrou para si mesma
- Não gostou do meu nome?
Com os olhos cheios de ódio a freira deu um tapa na face do homem.
- Por que fez isso? – sorriu ironicamente Lucas
- Assassino! – repetiu ela o ato
- Do que está falando, velha louca? – gargalhou ele sutilmente
- Eu lhe mataria apenas com um olhar, homem desgraçado! Deveria estar ardendo no fogo do inferno, sentindo o calor abrir sua pele aos poucos, seu verme!
- Nossa! Acho que encontrei alguém pior do que eu. – riu ele novamente – Por que tens tanta raiva de mim? Onde está o amor que sentia por mim?
Ao terminar de falar Lucas tomou outra forma: estava um pouco mais velho (aparentava agora cinqüenta anos), cabelos ainda grisalhos, óculos na ponta do nariz, trajava um casaco vermelho e uma calça preta e tinha um livro em mãos.
- Beije-me, meu amor. O nosso último beijo.
- Arthur? É você, meu amado marido? – disse Heloísa com os olhos cheios d’água – Faz quinze anos que você se foi. Por que me deixou aqui sozinha? Por quê?
- Era minha hora, meu doce amor.
- Arthur... Meu amado Arthur! Esperei por tanto tempo... Você nem imagina.
- Agora a barreira do tempo está quebrada, meu bem. Apenas me beije.
Aos poucos as cabeças se aproximavam e os lábios estavam prestes a se tocar. Antes que eles se beijassem ela recuou.
- Não posso. Por mais que eu te ame eu não posso.
-Mas não é isso que você deseja?
- Sim, mas não é isso que eu farei!
Voltando à sua forma original e bastante furioso o padre disse:
- Eu voltarei, fique ciente disso. Quando você menos esperar estarei ao seu lado. E lembre de cuidar de suas crianças...
- Estarei esperando.
Lentamente a imagem do homem sumiu do aposento, causando alívio em Heloísa. Esta saiu do cômodo e o trancou. Desceu as escadas em passo acelerado, levando consigo um punhal que achara no quarto em que estava. Não demorou muito para ela chegar à saída do convento. O que faria fora dali durante a madrugada? Queria chegar à cidade. Estava com pressa, mas sua idade não a deixava correr, portanto foi ela paciente. Demorou quase uma hora para chegar ao lugar desejado, mas ao menos chegou antes do amanhecer. E lá estava seu destino: o prédio mais belo da zona mais rica da cidade. Entrou no edifício sem muitos problemas, afinal, o porteiro dormia na guarita.
Ao chegar frente à porta do elevador respirou fundo, abriu a porta e entrou. Pressionou o botão que indicava o nono andar. Aos poucos imagens se formavam frente a ela: eram Luíza e Lucas. Ele tentava beijá-la, mas a menina o repelia. Devagar ele se aproximava e logo a jovem se rendeu. Antes que o beijo acontecesse Heloísa começou a rezar:
- Pai nosso que estás nos céus, santificado seja o Vosso nome, venha nós ao Vosso reino...
Isso indignou Lucas. A imagem da menina permaneceu parada como uma estátua:
- O que fazes, velha imbecil?
-... Seja feita a Sua vontade...
- Pare com isso agora! O que pensa que está fazendo?
-... Assim na terra como no céu...
Lucas tomou novamente a imagem de Arthur e tentou beijá-la.
- Entregue-se a seu amado, minha bela! Renda-se ao amor...
Com os olhos fechados ela mordia os lábios e, suando frio, continuou orando baixinho:
-... O pão nosso de cada dia nos dai hoje, perdoai as nossas ofensas...
- Ninguém vai ficar sabendo. Eu sei que você ainda me ama, portanto me beije. Vamos, se entregue ao amor!
-... Perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos têm ofendido...
- Não adianta! Tuas orações não vencerão a mim e nem a seus desejos reprimidos.
-... E não nos deixei cair em tentação...
- Isso já está me irritando... – aproximou-se o pároco
Heloísa lambia os lábios e vagarosamente sentia a respiração de Arthur tocar sua face, entretanto, a três centímetros do beijo ele deitou-se bruscamente sobre os ombros dela ,que friamente cochichou no ouvido dele:
-... Mas livrai-nos de todo o mal...
Afastando-se, Lucas, com os olhos arregalados e a boca cheia de sangue, retomava sua verdadeira forma.
- Como pôde fazer isso comigo?
Heloísa cravou no peito dele o punhal que trouxera do convento. Tonto, ele caiu encostado na parede, sujando-a com sangue. Havia um corte profundo em seu peito em forma de cruz.
- Nos vemos no Inferno! - despediu-se ele
-... Amém!
Ao Heloísa dizer esta última palavra o ascensor despencou em altíssima velocidade, chegando rapidamente ao térreo, lançando a senhora porta a fora. A carmelita obviamente desmaiou e só acordou às oito horas da manhã, quando foi socorrida por uma ambulância que fora chamada por pedreiros que seriam responsáveis pela derrubada daquele prédio que estava às ruínas.
Aliviada a carmelita disse a si mesma: “Acabou”
Enquanto era carregada numa maca a freira observou caminhando perto dela a pequena Luíza que sorriu dizendo:
- Obrigado.
Três rapazes carregaram-na para dentro da ambulância, fizeram alguns curativos e a deixaram em casa. Ao chegar lá, perto do meio-dia encontrou Allan, em sua cadeira de rodas, acompanhado de Lúcia. O menino a abraçou e perguntou:
- Posso brincar com ela, vó?
- Pode sim, com quem você quiser.
O menino paraplégico e a pequena cega deram as mãos e foram ao pátio junto à Irmã Lúcia.
A partir daquele momento tudo passou a ser diferente: ao menos por enquanto...

Luíza: Parte 1

Luíza. Esse era seu nome. Morava em uma casa comum em algum lugar do Brasil. Irmãos? Não os tinha. Vivia com seus pais cujos nomes eu não tenho conhecimento. Ela era jovem, apenas dez anos, longos cabelos negros, da cor de seus olhos, branquinha que só. Sua vida era monótona, baseada numa rotina “casa-igreja-escola”, afinal, a educação que recebia era extremamente rigorosa.
Tinha apenas treze anos quando seus pais morreram em um trágico acidente de carro. A sua guarda ficou sob custódia de seus avós, que a colocaram num convento. A garota de nada reclamou, aceitou tudo silenciosamente.
O convento se localizava em um local meio isolado da cidade. Lá, as freiras costumavam viver à moda antiga, usando vestes pesadas e com educação rígida. Pelas redondezas andavam a cavalo e a noite era iluminada por belos lampiões. Havia lá também uma escola que se iniciava a partir do Ensino Médio. Apesar de todos os costumes, todas elas iam freqüentemente à cidade e tinham conhecimento do que havia por lá.
No dia em que Luíza chegou a tal lugar notou rapidamente a enorme diferença entre este e a cidade, mas brevemente se adaptou. Porém, agora se tem hora para comer, brincar, orar e estudar. Mesmo assim, Luíza às vezes desrespeitava as normas.
A garota não dormia. Ficava apenas deitada ou fingia dormir até perceber que todos dormiam para poder admirar a noite e caminhar pelos jardins. Certa vez, em plena madrugada, deitada sobre a leve e macia grama coberta de belas flores que envolviam o chafariz, quando ouviu alguém chamar seu nome. Assustou-se, pensando imediatamente na possibilidade de ser uma das freiras como a Irmã Laura, que batia naqueles que a desobedecessem. Mas não era. Ficou de pé, trêmula e com os olhos arregalados, observando tudo o que podia, até ouvir a mesma voz, que vinha de detrás de uma árvore. Ela caminhou vagarosamente na direção daquele belo cajueiro. E lá estava um bonito rapaz, que trajava uma batina e guardava um crucifixo por detrás desta. Luíza, assustada, perguntou como ele sabia seu nome, e ele disse-a que ficasse calma, pois também era do convento, e a menina jurava nunca tê-lo visto. O homem beijou a mão da mocinha e a convidou para ir à cidade. Convite recusado, pois era lei sair apenas com permissão. Sorrindo, o indivíduo afirmou ser um padre, que era uma autoridade. A doce criança pediu um pouco de tempo, e que ele a encontrasse no dia seguinte, na hora do almoço ou na missa. Ele respondeu que não seria possível, mas que os dois se encontrassem na madrugada do dia seguinte.
Ao acordar Luíza permaneceu sentada em sua cama, pensativa, brincando consigo mesma de tentar adivinhar o nome do novo amigo. Não, ela não tinha interesse algum para com aquele homem, ela só quer um amigo, e afinal, ele é um padre.
Após o almoço a menina procurou o pároco dentro do convento, porém não o encontrou.
Durante a noite a jovem fingiu dormir por horas, até o relógio marcar a meia-noite. Quando chegou o momento tão esperado, correu para o jardim e deitou-se na grama como de costume.
-Estava me esperando, Luíza?- soou uma voz grave em seus ouvidos.
-Padre? - ergueu-se ela e viu o clérigo sentado em um dos bancos do jardim.
-Sim, eu mesmo... – sorriu ele.
-Lembra que você disse ontem que me levaria à cidade hoje? Não é por mal, sabe, é que eu quero conhecer parte dela, e o senhor é o único homem que não teria más intenções para com uma criança como eu, e...
-Eu entendi, entendi... e... Senhor? Não, não, me chame por você mesmo... e obrigado pela confiança. – disse ele estendendo a mão à mocinha.
Quando chegaram à porta da imensa instituição ela parou de andar:
- Qual o seu nome? Acho que não perguntei...
- Sou o Padre Lucas. E você é a Luíza, não é?
- Sim, sou... como sabe meu nome? – riu com um sorriso de dúvida.
- Ora, sei o nome de todos daquele convento.
E assim continuaram a andar rumo à cidade. Andaram durante quase meia hora e comeram em um restaurante simples. Vendo que já eram duas horas da manhã, Lucas perguntou:
- Quer dormir lá em casa? Já é tarde... Mas calma, antes que pense algo mal intencionado, vou avisando que moro na parte do fundo de minha Igreja e lá também é um convento, não tão grande quanto o seu, mas tem meninas de sua idade e...
- Não... quero ir para a minha casa. Você, apesar de ser um padre ainda é estranho para mim, certo?
- Oh! Desculpa, Luíza. – baixou ele a cabeça – Eu te levo em casa.
A garota foi deixada na porta do seu lar e logo que deitou em sua cama, adormeceu.
Passaram-se três semanas e o clérigo não apareceu. Luíza aos poucos sentia saudades e pensou ter agido grosseiramente com Lucas.
Numa noite de sábado, enquanto ela dormia, sentiu calor, o que a acordou. Foi então abrir a janela, e ao fazê-lo assustou-se gritando. Lucas estava em sua janela.
- Que susto! – sussurrou ela
- Calma, sou eu. Vim aqui de passagem...
- Você não dorme? Você nunca dorme, não é?
- Eu celebro missas à meia–noite, por isso a essa hora estou de pé ainda. Acabei de sair da igreja.
- Hum...
- Já que você ta acordada, por que não troca de roupa e vamos a um restaurante de classe alta?
- Não posso...
- Como não? Vamos... vai ser rápido.
A garota rendeu–se ao convite rapidamente e trocou de roupa enquanto ele a esperava no jardim.
Jantaram às gargalhadas comidas estrangeiras como se fossem velhos amigos e nem notaram o tempo passar.
- Eu tive uma idéia: Que tal se eu passasse lá no apartamento onde passo o fim de semana, daí você me espera, eu troco de roupa e vamos a vários lugares da cidade?
- Mas por que você vai lá? Vamos assim mesmo.
- É que se virem que estou de batina saberão que sou padre e me vendo com uma menina que tem idade de ser minha filha vão pensar o que de mim?
- Mas não vamos demorar, certo? Tenho que voltar logo.
Eles não precisaram andar muito para chegar até o edifício. Era o mais belo da zona mais rica da cidade. Luíza espantou-se com tamanha beleza do lugar. Lucas pediu para ela entrar e ao chegar frente ao elevador ela parou e disse que o esperaria ali mesmo. Ele insistiu e implorou que ela esperasse na escada. Ela aceitou.
Quando o elevador parou, ela abriu a porta, mas ele disse que ainda era o sétimo andar e o apartamento localizava-se no nono.
- Então porque parou aqui?
- Preciso te contar uma coisa e espero que entenda: quando eu te vi, queria ser apenas seu amigo, mas as coisas começaram a mudar, eu comecei a... a... a sentir prazer por você, porque você é tão doce, tão pura – disse aproximando-se dela – quero algo mais de você, pequenina...
Luíza ficou pasma e se afastava a cada passo que ele dava, mas houve um momento em que ela estava em tal posição que não tinha para onde ir. Ele falava com os olhos brilhantes, o que rendeu a menina... o que fez o beijo entre os dois acontecer. Ele a segurou com firmeza e ela o abraçou durante o ato. Menina de 13 e homem de 40; padre e pequena freira: um ato proibido. Continuaram por dois exatos minutos, até que Luíza recuou.
- Não, eu não posso!
- Claro que pode. – aproximou-se novamente
- Não, está errado... desculpe, eu não posso.
- Eu não de dou prazer, é isso?
- Não é isso, é que...
- Calada! – gritou ele – eu te dou tudo e você me agradece assim, não é?
- Não, você não enten...
- Cale-se! – gritou estapeando a face dela. A culpa é sua de eu ter sentido prazer por você, então, terá o que merece!
- Lucas... – lacrimejou Luíza – É um mentiroso! – Você mentiu!
- Não, eu não menti! Talvez sim... mas verás a verdade agora.
- Que verdade?
- Essa. – sussurrou ele puxando-a a força.
Bruscamente, Lucas a beijou e, ao notar a presença de um crucifixo envolto ao pescoço dela, o usou como arma, enforcando-a. Luíza reagia em vão.
Logo ela morreu, enforcada e pura, deixada dentro daquele elevador, presa ao teto. Foi encontrada dois dias depois, com seu sangue totalmente coagulado e seu corpo fétido. No espelho do elevador estava escrito: “Reze por ela... e por você também”.
O convento ficou em profundo luto, e em seu enterro, num dia bastante chuvoso, a tristeza era predominante no cemitério. Heloísa, uma carmelita que de Luíza bastante gostava, observava tudo em profundo silêncio: a chuva caía, o caixão molhava, o povo chorava. A chuva caía, o caixão molhava, o povo chorava. A chuva caía, o povo chorava, o caixão molhava... molhava... vazio...

Luíza: Parte 2

Heloísa fora a única testemunha de tal fato de que ocorrera durante o funeral, mas permaneceu calada para não provocar transtornos.
Quanto à falecida menina, as orações em sua memória perduraram por seis meses, como de costume.
Certa vez, quando Heloísa acabara de acordar, notou que sua parede estava riscada, e que aos poucos os riscos se tornavam mais visíveis. Meio assustada, levantou-se e tentou enxerga-los com mais clareza. Rapidamente viu-se claramente a seguinte frase: “Reze por ela... e por você também”. Com o susto ela caiu para trás, mas logo tentou correr em direção à porta do quarto. Em vão. A porta não abria. Tentou mais uma vez, agora com todas suas forças, mas não conseguia. As palavras estavam escritas em todo o cômodo, e Heloísa se desesperava em vão. Subitamente as escrituras desapareceram e a porta abriu violentamente lançando a mulher sobre a cama. Ela permaneceu trêmula por alguns minutos, mas logo se levantou e caminhou apressadamente para o oratório.
Tal acontecimento continuou na mente da boa senhora por algumas semanas, até que ela resolveu, por interpretação dos fatos, pedir que retornassem as orações por Luíza, mas a diretoria do convento afirmou que seis meses eram o bastante, recusando assim o pedido de Heloísa.
Havia vizinho ao convento um pequeno orfanato, este pertencente àquele. Lá se encontrava crianças de todas as idades, porém, todas brancas. Num dia comum, na enfermaria do orfanato, ouviu-se gritos que pareciam ser de desespero. Duas carmelitas correram imediatamente até lá e encontraram um garotinho caído no chão e com um terço envolto ao seu pescoço. Estava ele desmaiado. Seu coração não batia, sua respiração estava cessada e ele não reagia aos socorros. Doze horas depois o menino foi declarado morto e novamente o constrangimento pesava sobre a consciência das freiras. Maior ainda foi a culpa carregada nos ombros de Lúcia, a enfermeira responsável pela custódia do garoto, esta que não parava de chorar por um segundo.
Durante o velório as lágrimas do silêncio predominavam por toda a parte, até que um grito desperta a atenção de todos os presentes. Era Heloísa, que corria em direção ao caixão.
- A criança está viva! Tirem-na daí! – abraçou ela o menino
Realmente era verdade. Durante o velório Allan, esse era o nome dele, abrira os olhos, causando tremenda alegria à Heloísa, que oscilava entre o riso e o choro. Lúcia quase desmaiou de tremenda alegria. Tudo voltou ao normal.
A senhora implorou para que o menino ficasse sobre sua custódia. A diretoria não viu problema algum nisso e aceitou pacificamente.
No dia seguinte ela foi à enfermaria com o intuito de conversar com a criança, mas de maneira lenta, para não assustá-la. Ela queria respostas. Respostas para questões levantadas por ela após a quase morte de Allan.
- Allan, o que você fazia ontem enquanto estava deitado aqui na enfermaria? Estava dormindo?
- Não, senhora, eu apenas questionava sobre a vida.
- Nossa! Você nessa idade já questiona a vida? – disse Heloísa sorrindo
- Sim, queria saber por que tanta criança no mundo tem seus pais e eu não. Não me acho um menino ruim.
- Eu também não tenho nem pai nem mãe.
O garoto a olhou com um ar de reprovação:
- Eu só tenho nove anos, garanto que você tem mais que isso.
- Nunca conheci nenhum dos dois, Allan.
- Eu preferiria não tê-los conhecido a perdê-los aos nove anos. – Disse o garoto engolindo seco.
- Perdão, não sabia que a perda foi tão recente.
- Por que você acha que eu estou aqui nessa enfermaria? Por quê? – berrou o menino
- Calma, respire... Vamos mudar de assunto, certo?
- Certo. – suspirou Allan enxugando as lágrimas
- E em algum momento, enquanto estava aqui, você adormeceu?
- Eu estava deitado quando de repente apareceu um garoto da mesma idade que eu. Ele era negro e estava deitado naquela cama ali. – apontou para a cama vizinha, que estava vazia. – Ele se levantou e me chamou para brincar. Tentei me levantar, mas eu não sei mais andar. Só que eu fiquei tão feliz que havia esquecido disso. Na tentativa de eu me levantar eu caí e... e... e pronto. Não lembro de mais nada.
Heloísa ao ouvir o que o garoto disse levantou-se e caminhou em direção aos quartos do orfanato, mas subitamente ela parou. Suou ela frio. Havia lembrado que aquele lugar só possuía crianças brancas. Naquele instante a carmelita simplesmente não sabia o que fazer, apenas imaginava como um garoto negro estaria no quarto, ao lado de Allan. A freira não desistiu e pôs-se a andar novamente direcionando-se aos dormitórios. Eram muitos, mas para ela isso não importava. Visitou-os um por um, mas não achava a criança desejada. No último daqueles encontrou a Irmã Marília, a qual a informou que haviam crianças brincando no jardim. Ela não desistiu, foi até lá. Em vão. Não tinha criança negra alguma por lá.
Heloísa voltou à enfermaria para tornar a conversar com Allan, mas ele não estava mais lá. A Irmã Denise disse que ele voltaria em poucos instantes, pois estava tomando banho.
A senhora resolveu esperar. Ao sentar observou um papel dobrado e meio amassado sobre o travesseiro. Vagarosamente o papel foi lido, onde estava escrito: “Tinho, onde está você? Espero que venha me visitar novamente. Preciso de amigos.”. A carmelita ficou trêmula e ao mesmo tempo aliviada. Agora sabia o nome do garoto.
- Xeretando minhas coisas, senhora? – era Allan, trazido nos braços de Lúcia e posto na cama.
- Desculpe, Allan é que...
- Eu entendo a vontade que você tem de saber quem é o Tinho, mas desse jeito acho que você vai gastar muito tempo.
- Não é bem isso...
- Não precisa se desculpar, senhora, eu entendo a situação pela qual você está passando.
- Nossa! Como você tem o português bem falado, Allan, onde aprendeste a falar assim?
- Foi o tipo de educação que eu recebi.
- Hum... Você é muito inteligente e educado, garoto. – sorriu Heloísa
- Sua tentativa de mudar de assunto falhou, senhora.
- Menino! Estás me deixando sem graça desse jeito. Por que és tão frio comigo?
- Meus pais eram frios, por isso sou assim. Porém eles me amavam. – derramou uma lágrima a criança
Heloísa se comoveu com a tristeza do menino e fez um sinal para a enfermeira pedindo que ela se retirasse. Lúcia obedeceu ao pedido.
- Me fale sobre seu amigo, o Tinho.
- Não falarei sobre ele pra você, senhora.
- Por que você só me chama por senhora?
- Porque é o que você significa pra mim. Apenas uma senhora.
- Ó céus, o que foi que eu fiz para merecer esse tipo de tratamento? Meu nome é Heloísa. Se quiser você pode me chamar por vó, certo?
- Certo, senhora.
Neste exato momento o sino tocou e todos se direcionaram ao refeitório, pois era hora do almoço. Heloísa se levantou e avisou a Allan que iria buscar o almoço dele. Ele fez sinal de positivo e debruçou-se sobre a cama.
O comportamento da criança era o que mais intrigava a carmelita. Ficava esta muito curiosa para saber como foi o passado do menino, mas pelo tipo de tratamento que ela recebia dele se tornava quase impossível o garoto contar algo à freira.
Chegando ao refeitório Heloísa procurou Allan com o olhar, achando-o facilmente. Pôs-se ela a sentar e a esperar servirem-na. Vagarosamente baixou a cabeça e iniciou uma oração. Enquanto orava notou que tudo estava em profundo silêncio. Assustada, ergueu rapidamente a cabeça e observou tudo ao seu redor. Via apenas meninos conversando e algumas carmelitas servindo o almoço. Pensou estar surda, o que a fez suar aos poucos. Trêmula, sentiu que seu coração acelerava e sua respiração cessava, como se estivesse ela engasgada. Rapidamente passou sobre sua mente a imagem de uma menina engasgando-se com um brinquedo em sua boca no quarto 039. Instintivamente Heloísa correu em direção ao quarto 039, assustando a todos em sua volta.
A carmelita subiu as escadas o mais rápido possível. Durante a subida ouvia gritos de desespero, deixando-a mais nervosa.
- Estou chegando! Agüente aí, pelo amor do Santo Cristo!
Ao chegar ao destino desejado encontrou mais um obstáculo: estava o cômodo trancado. A senhora tentou várias vezes abrir a porta, mas foi em vão. Continuou persistindo até que por um instante a porta abriu, permitindo-se apenas ver o quarto por uma pequena brecha. Porém, quando Heloísa tocou sua mão na porta, esta fechou violentamente, jogando-a a três metros de distância do quarto. Lentamente a freira ergueu-se e, ao entrar no aposento, surpreendeu-se...

Luíza: Parte 3

...uma menina engasgava-se com um brinquedo. Ela gemia deitada com a respiração acelerada e as mãos na boca.
Heloísa retirou o soro que estava preso no braço da menina, a pôs sentada na cama do quarto e deu alguns tapas nas costas da menina, mas ela não desengasgava. Optou por retirar com suas próprias mãos, e ao fazê-lo sentiu alívio e a criança começou a tossir, golfando um pouco sobre seu colo.
- Calma, filhinha, está tudo bem agora. Respire fundo e me conte o que aconteceu.
- Obrigado, senhora. Deixe eu te tocar. – esticou a garotinha a mão tentando alcançar o rosto da freira.
- Menina, não pode colocar brinquedos na boca, é perigoso.
- Mas ele que caiu. – apontou a jovenzinha para cima, onde havia vários brinquedos pendurados por fios de nylon.
- Mandarei retira-los, certo? Agora está tudo bem.
A inocente ajoelhou-se no leito e pôs-se a tocar a face da carmelita. Sorrindo, esta disse:
- Qual é o seu nome, querida?
- Marta, e o seu?
- Heloísa. Que bonito nome o seu!
- Obrigado. – sorriu a senhora novamente
- Eles ainda estão aí?
- Quem são eles?
- Os meninos que conversavam comigo no quarto.
- Mas não há menino algum por aqui. – olhou Heloísa em sua volta
- Então eles já foram.
- Como eles eram?
- Não posso contar.
- Por quê? Eles eram maus? – fez a freira uma careta engraçada fazendo Marta sorrir.
- Hahaha! Não. Eles não pareciam maus. Eu não posso contar porque eu sou cega. Como saberei como eles são?
Heloísa pegou na mão da criança e pediu para ela segui-la.
- Para onde vamos?
- Vamos à diretoria. Vai ser rápido.
- Mas vó, eu ainda tenho que tomar soro.
- Não se preocupe, não vamos demorar.
A garotinha foi levada nos braços até o quarto da freira, onde adormeceu. A senhora foi à diretoria e pediu que Marta ficasse sobre seus cuidados. Para os diretores não havia razões suficientes para a menina mudar de quarto e ficar sob cuidados especiais. Mas Heloísa insistiu e exigiu que a garota trocasse de cômodo. E assim foi feito; na mesma noite algumas enfermeiras aplicaram novamente o soro em Marta. A menina, entretanto, permaneceu em profundo sono, sem fazer o mínimo sinal de incômodo.
Durante a madrugada Heloísa despertou de seu sono e teve a seguinte surpresa: Marta não estava mais na cama. Imediatamente a carmelita calçou suas sandálias e pôs seu casaco, pois fazia frio, e foi à procura da menina. As luzes das escadas estavam acesas e Heloísa viu uma sombra em sua frente. Ao começar a subir as escadas ouviu passos e a sombra não estava mais em sua frente.
- Tem alguém aí?
Ouviu-se, afastando-se, uma risada semelhante à de uma criança.
- Marta? Sou eu! Vim te buscar! O que fazes acordada, menina?
O silêncio predominou, o que assustou um pouco a freira.
- Quem está aí? Vamos, responda!
Não se escutou resposta. Ao chegar ao andar acima encontrou apenas um corredor e várias portas. No final daquele se encontrava Marta e Allan correndo às risadas. Heloísa suspirou aliviada.
- Meninos... Vão dormir! Vocês sabem que é proibido meninos e meninas se misturarem. Se a Irmã Laura vir vocês dois juntos teremos problemas. Allan, como conseguiu passar para o lado que as meninas ficam? Ah, aquela Zélia deve estar dormindo em serviço. Coitada dela se a Irmã Laura descobrir que vocês estão juntos... Venham! Vocês têm que descansar. – eles não lhe davam a mínima atenção – Marta? Allan? Estão me ouvindo?
Heloísa apressou os passos, mas tropeçou e caiu no chão; havia um crucifixo preso dentre dois pisos. Ela pacificamente tirou o pequeno cordão que prendera em sua perna direita. Ao levantar-se viu as paredes do corredor rabiscadas, onde havia a frase “Reze por ela e por você também” em vários idiomas. A senhora caminhava e as frases formavam-se ao lado dela a cada passo que ela desse. Lentamente as paredes se afastaram e inúmeras imagens formavam-se perante a carmelita: uma garota ouvia música dentro de um carro, duas freiras se beijavam, várias crianças, sejam brancas ou negras, meninos ou meninas, corriam e brincavam de roda, um jovem e uma jovem namoravam debaixo de uma árvore, um rapaz e uma moça transavam, uma senhorita grávida sorria... Todas essas imagens formavam-se concomitantemente, causando dor de cabeça em Heloísa, fazendo-a fechar os olhos e gritar. Ao abrir os olhos viu que tudo voltara ao normal e as crianças estavam caídas no chão. A freira foi apanhá-las. Os dois tremiam com o frio e estavam de olhos fechados. Heloísa, ao tocá-los, os acordou.
- Vó! Que bom que estás aqui! O que fazemos aqui? Me leve para o quarto, por favor. Estou com frio, com medo! – gemeu Allan
- Vou levá-los daqui. Não tenha medo, vovó está com vocês.
- Quem é esta, vó? Nunca tinha visto uma menina de perto por aqui. – sorriu o menino, este tentando tocar o rosto de Marta com as mãos. – Me deixe tocá-la
Heloísa o colocou ao lado da garotinha. Allan alisava o rosto de Marta com os olhos brilhantes. A carmelita não conteve a emoção e derramou aos poucos algumas lágrimas. O garoto cantava baixinho:
- Menininha, menininha, você é tão bonitinha. Venha ser minha amiguinha! Vai ser legal. Brincaremos o dia inteiro. Brincaremos, brincaremos sem parar. Brincaremos, brincaremos até cansar e cantaremos até o sol raiar...
- Vamos. Vou deixar vocês nesse quarto. – apontou Heloísa para o quarto 056
Ela pôs os dois cuidadosamente numa cama de casal que havia no quarto. Pensou: “Cama de casal? Num convento?”. Pôs-se a observar o cômodo. Havia um extenso guarda-roupa que possuía vestes femininas e masculinas. Tinha também uma cômoda, e sobre esta haviam vários porta-retratos. Eram sete: no primeiro havia uma foto e um bebê, no segundo de uma menina de aproximadamente seis anos, no terceiro uma jovem de treze, no quarto uma moça de dezessete com o namorado, no quinto uma senhorita e seu marido no seu casamento, no sexto uma mulher grávida e por último uma senhora sentada numa cadeira de balanço sorrindo com seus netos. Todas as fotos mostravam momentos da vida de uma pessoa em ordem crescente. O que mais despertou a atenção de Heloísa foi que o indivíduo dos retratos era Luíza. Mas ela lembrou que a jovem morreu aos treze anos, como poderia ter casado, tido filhos e netos?
- Não encontrou o que queria, Heloísa? - soou uma voz feminina em seus ouvidos...

Canção da Pirâmide


Eu pulei no rio e o que eu vejo?
Anjos de olhar negro nadando comigo
Uma lua cheia de estrelas e carros astrais
Todos os elementos que eu costumava ver.

Todos os meus amores nadavam comigo
Todo o meu passado e futuro
E fomos para o céu num pequeno bote
Não há nada a temer nem a duvidar


por Thom Yorke (RadioHead)

Ofélia


O dia está lindo!
Pássaros cantam. E as borboletas?
Indo e vindo junto àqueles numa bela sincronia
Enfeitando minha janela que brilha à luz do dia.

E eu aqui em minha cama.

As ruas estão quietas, calmas.
Mas nada acalma minha alma
Que inquieta me faz suar e tremer
Tua face, Ofélia, impede-me de meu livro ler.

E continuo aqui em minha cama.

Meu cão vem a mim, acariciar,
Rouba-me do rosto um sorriso demorado
Semelhante àqueles que sorri junto a ti, Ofélia,
Enquanto recitava na fria areia da praia durante o luar,
Os mais belos versos de amor
Que só um poeta apaixonado poderia declamar.

Lembrei de ti sozinho em minha cama.

Tantas canções para cantar, paisagens para admirar
E poesias para chorar... Mas estou aqui
Atordoado com o mau cheiro, vegetando ao teu lado,
Porque sou teu namorado e preciso cuidar de ti.

Te amo sentado em minha cama.

A culpa é tua, Ofélia, preciso confessar.
Por que morreste logo hoje e não outrora?
Por que não amanhã, mas agora?
Por que, maldita?

Tua morte inevitavelmente me causou tremendo desgosto,
Tua imagem me perseguirá eternamente.
Tua imagem! Ah, tua imagem! Ficará vidrada em minha mente...
Só me resta agora espantar os mosquitos
Que pousam em teu fétido rosto.

Carta a um amigo


Tu, que dominas pedaço de minha alma,
Que no baixo da tristeza me faz crescer,
E no momento de fúria me acalma,
Por toda companhia, amigo, devo agradecer.

Me fizeste pensar mais uma vez
Quando eu gritava inseguramente
Que viver não vale a pena
Mas que uma pena pode me fazer viver.

Me fez levantar, outra vez,
Depois da última queda,
E quando quase desisti, mostrou-me
Que lágrimas regam a felicidade.

Entendeu-me, perdoando-me
Pelas falhas para contigo,
Quando quase de raiva chorei, sozinho,
Gritando que fui a causa de sua desgraça,
Que sou o dono do inferno, da sua dor, seu lobo,
Mas que mesmo assim seria seu melhor amigo.

O tempo passa... sempre
Um dia tudo tenderá a se desfazer... lentamente,
Mas não importa a força do tempo...
Mesmo morto, amigo, ainda estou ao teu lado.

Mulher Exata


Ela adora me transtornar,
me beijar, me dar afeto,
me envolver com suas pernas
que em mim fazem um ângulo reto.

Suas pernas são longas, compridas
A soma dos quadrados de quaisquer catetos
Guardando aqueles quadris
de raio imensurável.

Vamos encontrar a fórmula, a solução
dessa equação amorosa de segundo grau,
que nem delta nem logaritmo
poderão achar o módulo dessa função.

Ó céus, conserva naquela mulher aquela base,
nos eleva à potência máxima,
e nos inclua, por definição,
num conjunto infinito.

A física dela... nem se fala!
O seu trabalho é incomparável,
Independente do atrito, pois nesse sistema
nossa tração e atração são sempre positivas.

Não deixe esse amor ser tangencial
e sim em força centrípeta constante,
em que sejas sempre atraída
pela nossa relação resultante.

Despreze tua resistência, mulher,
Deixando que as partículas opostas se atraiam
e que ângulos formem arcos
com deslocamento de 2π radianos.

Seu campo gravitacional me enlouquece,
Me tira do sério, me arrebata,
Dentre as mulheres que amei
Ela foi a mulher exata.

Mais que uma pedra


De volta ao início,
Lembrando de tudo que nos levou ao pó.
Você está bem
Enquanto aqui engulo seco na ponta do espinho

Não pense que vai ser fácil
Apagar nosso passado
Desabamos, nos destruímos,
Terminamos o que nem começamos

Hei, me dê a chance
De voltar a ser eu
Não me cegue
Com a ponta de sua agulha
Sei que pra você
Não sou mais que uma pedra
Mas não me deixe sozinho
De novo

Não consigo extrair
O que acumulei na garganta como o pus no meu sangue
Não me importa os restos de vida agora
Na minha mente falecida

Você me levou ao ponto mais alto
E depois me derrubou
Deste céu azul
Para com meus olhos cinzentos.

Neste céu de trevas
Com seus raios de fogo
Que me queimaram
E me consumiram intensamente

Mas de nada valerá
Dentro dessa minha concepção
Nos meus sonhos ilusionistas
Se ascendem um recomeço.

Coração Sombrio


Ela é um poço melancólico
Com os pés descalços no chão.
Seus braços estendidos pro céu
não me enganam, pedem perdão.

Mas logo ela que desde nascida
É presa com seus pecados,
Totalmente fixada em angústia e rancor
Que lhe fazem crescer e chorar.

Não me diz
Que és a mais feliz
Dentre aquelas que te envolvem
E suplicam antes de partir.

Como um ser tão paranóico e sombrio
consegue sorrir?
Louvando com seus vários membros
Àquele que a fez emergir

Pobre criatura, percebas que és
inotável entre nós.
Sei que tua rebeldia e loucura
podem fazer tudo cair.

Tua vida é mais longa do que eu pensei...
É mais um azar ou só uma sorte?
Rezo sempre por você porque sei que um dia
Alguém te levará ao teu leito de morte.