A Oração

 


Amanheceu um dia ensolarado e bonito, desses que nos impelem a ir à praia. Acordei cedo, como de costume, e me organizei para ir ao culto matutino na pequena igreja do bairro vizinho. Eram nove horas da manhã, e o azul do céu transmitia aquela paz única e dominical do primeiro e mais preguiçoso dia da semana. Enquanto dirigia, ouvia louvores e cantava-os suavemente em agradecimento a Deus por mais uma semana que se iniciava.

Ao sair da igrejinha, recordei-me de que precisava comprar alguns ingredientes para o almoço, ainda que houvesse dúvida se eu o prepararia ou optaria por almoçar em algum restaurante perto de casa. Escolhi, por hábito ou coragem, ir ao supermercado. Enquanto escolhia entre macarrão ou arroz, suco de jenipapo ou Coca-Cola, o celular vibrou. Era dia de vestibular, e eu havia prometido a meu primo que o encontraria à porta da faculdade onde ele realizaria a prova para desejar-lhe boa prova, a qual ocorrera em janeiro daquele ano por conta da pandemia que se instalava mundo afora.

Já estou pronto, você já está indo para lá? Eram exatamente as combinadas onze horas. Ri comigo mesmo, não por ser uma situação engraçada, mas por estar acostumado a lidar com pessoas mal resolvidas com horários marcados. Apressei-me com as compras e parti rumo ao seu encontro. Ele morava atrás da faculdade onde realizaria a prova, portanto pediu-me que o comunicasse quando lá estivesse. E assim fiz.

Apesar de chegar cedo, mal dera 11h15, já havia bastante gente, tanto para realizar o exame quanto para apoiar os estudantes. Muito menos que o habitual, diga-se de passagem, uma vez que enfrentávamos ainda a Covid-19. Encontrei por milagre uma vaga para estacionar, pois enquanto acompanhava a fila de carros que entregava seus filhos ao teste, avistei um automóvel que sinalizava saída.

Na calçada, mulheres me ofereciam descontos em matrículas em universidades a bolsas de estudos para estudantes recém-saídos do Ensino Médio. Eu já tenho mais de trinta, mas agradeço. Ela me encarou, desacreditada, e eu lhe respondi que possivelmente a máscara de proteção escondia minha idade. Ofereceram-me água, eu aceitei. O sol à medida que abençoava também castigava os desavisados como eu que não costumam usar protetor solar.

Surge, então, na esquina, um jovem tímido e muito branco, o qual não tive dificuldade de reconhecer. Ergui o braço direito, em aceno, e ele de imediato  respondeu. Sua tranquilidade no caminhar escondia a tensão de quem tentava pela segunda vez o ingresso no curso de Direito da Universidade Federal. A camisa branca com detalhes em cinza nos ombros e a bermuda leve e cor-de-vinho, bem como a máscara branca com detalhes quadriculados transmitiam serenidade e segurança, mas os olhos miúdos e agitados e o balançar das pernas enquanto conversava não mentiam.

Não tivemos muito contato. Na vida pessoal, quase nenhum. O laço familiar que nos une é um pouco confuso e distante. Fomos descobertos como primos em uma reunião de pais na escola em que eu era seu professor, quando seu tio informou um parentesco de segundo ou terceiro grau com meu pai. Lembro também que ele não curtiu muito ao receber a informação, em seus 14 anos. Apesar de uma criança agitada na escola, dessas que vivem suando pelo pátio e não gostam muito de fazer a lista de atividades de análise sintática, sempre foi um menino educado e respeitador. Nunca respondia ou alterava a voz para quem quer que seja. Lembro-me de que ele mudou de escola ao concluir o Ensino Fundamental, o que foi o suficiente para que perdêssemos o contato que de alguma forma a vida cruzou nosso caminho outra vez um ou dois anos depois e fez questão de nos devolver.

Está quente, aqui. Vamos buscar uma sombra? Caminhamos em direção à lateral do prédio da faculdade, mas fomos impedidos por um rapaz que ali trabalhava. É proibido ficar aqui, o local é sujeito a provocar aglomerações, informou. Em tom áspero, inclusive, mas eu não estava a fim de bancar o educador perante um rapaz de vinte e poucos anos. Apenas obedeci.

Olha, uma árvore. E não tem ninguém ali. Interessante como elementos simples como a sombra de uma árvore nos são potencialmente mais valiosos quando necessitamos deles. Sua pele alva se confundiria com o branco de sua blusa se não fosse as listras cinzas que ornamentavam o tecido de sua veste ou ainda o avermelhar que surgia consequente dos poucos minutos que estávamos debaixo do sol.

Apesar dos recentes dezoito anos, admirei-me como ele já era convicto de tantas coisas, especialmente aquelas que diziam respeito à fé e a seus projetos de vida. A criança que quando conhecera tinha não mais que onze anos tornara-se um rapaz sério e convicto, e isso soava tão bonito quanto assustador, haja vista a percepção de tempo. Meu peito se regava de orgulho, ainda que também de dúvida acerca de minha influência em seu crescimento.

Em meio ao diálogo, um dèja-vu. Não que eu estivesse ali outrora, não era sobre isso. Revivi ali as minhas angústias, planos e desejos de meus saudosos dezoito anos, quando as oportunidades se escancaravam em minha vida. Apesar de nossa conversa se desenrolar de maneira leve, por um momento alcancei empatia tal que pude reviver o que era novo para ele naquele instante. Naquele contexto,  não assumi o papel da voz da experiência, até porque meu nível de maturidade encurtava um pouco nossa distância temporal de treze anos, mas senti espaço para compartilhar experiências positivas e negativas de minha jornada pós-vestibular. Acredite, jovem, há vida após ele. Ele sorriu com os olhos.

O movimento de estudantes em direção à entrada do prédio chamou a atenção. Era chegada a hora de sua prova e precisávamos nos despedir. Posso pedir uma coisa? Claro, respondi-lhe. Faz uma oração por mim. O barulho ao nosso redor imediatamente se ensurdeceu quando o ouvi dizer-me. Não sei qual o nível de referência espiritual que eu era para ele, acontece que era um pedido que transcendia o campo semântico das palavras, ou ainda da linguagem corporal dos olhos que me fitavam: ele me pediu com a alma. Fechei os olhos e impus minhas mãos sobre seus ombros, ele respondeu fazendo o mesmo. Oramos de tal modo que nada que nos fosse externo seria ouvido ou sentido até que novamente abríssemos os olhos.

Obrigado, primo. Essa era a oração que eu precisava ouvir para fazer uma prova tranquilo. Ela tirou dos meus ombros a ansiedade que eu vinha sentindo, e não tinha ninguém melhor que você para me transmitir essa paz. As palavras se perderam em algum ponto do meu aparelho fonador, contudo dei dois toques em seu peito com a mão esquerda, de modo que ele compreendeu a mensagem de agradecimento.

Nossos passos em direção contrária nos afastava paulatinamente, e eu o observava a distância até que ele se misturasse à multidão de estudantes que adentrava o prédio da faculdade. Ainda que o tivesse perdido de vista por trás dos portões que se fechavam e das pessoas que se movimentavam, eu o acompanhava de perto. Em espírito. Em oração.

A SOPA

 

Já escurecera, ainda assim eu permanecia frente a meu computador, sentado em minha cadeira que se tornava gradativamente menos confortável com o avanço das horas. Olhos cansados, a coluna pedia cama. Mas o evento seria no dia seguinte, e eu precisava concluir a digitação dos poemas que seriam entregues aos jurados do concurso artístico do dia seguinte. A ansiedade pela realização do evento crescia junto ao palco que se erguia perante mim, e eu podia trabalhar e acompanhar toda a sua organização graças à ampla janela que havia ali na coordenação. Luzes, plano de fundo, cadeiras para a plateia, ornamentação de palco, tudo se inclinava para que o amanhã fosse um dia grandioso.

Meu corpo já não conseguia produzir mais. Além disso, meu filho me esperava no pátio, cansado e faminto, e dependia de mim para voltar para casa. Aliei todas  as minhas emoções e sentimentos contrários à minha permanência ali e decidi que terminaria meus afazeres em casa.

Vamos, filho. Ele pegou de imediato sua mochila, levantou e acompanhou meus passos largos e sempre agitados. No carro, o alívio de uma sexta-feira à noite misturado ao pesar de uma tarefa interminável. A procrastinação tem seu preço e eu precisaria pagá-lo naquela noite. Meu filho, calado e voltado para a tela de seu celular, como todo adolescente de dezessete anos. Preparado para amanhã? Ele respondeu positivamente, não com a voz, mas com o balançar da cabeça sem desviar o olhar para quem com ele puxava assunto. Precisarei ensaiar em casa, eu trouxe o saxofone, daí o senhor ouve e diz se está bom, disse ele após alguns segundos de silêncio acompanhado do incessante labor do limpador de para-brisas que deslizava sobre a chuva fina que caía.

Estávamos ao semáforo, e dessa vez fui eu quem respondi positivamente com o balançar de minha cabeça, não por revanchismo, mas porque havia recebido uma mensagem e aproveitei para lê-la ao sinal vermelho. Amanhã não poderei ir, estou com febre. Fosse um ano atrás eu agradeceria a ausência, na verdade sequer haveria o convite, uma vez que o remetente me era um desafeto. No entanto, naquela circunstância eu me importei; nossas amizades em comum, em especial meu irmão que partira uma semana antes para São Paulo, fizeram com que eu deixasse de detestá-lo para considerá-lo uma companhia ao menos aceitável, ocasionalmente.

Abriu. Tendo ouvido isso, enviei OK para o indivíduo e segui viagem. Por um instante levantei a possibilidade de ele ter mentido, e em vez de admitir que um evento artístico não lhe era atrativo, optou por escolher um motivo que anulasse quaisquer possibilidades de sua presença. Seu irmão, que fora meu amigo, costumava alertar que não acreditasse nele, e talvez ele tivesse razão. Pouco me importava se ele mentia, eu tinha coisas mais urgentes para me preocupar, por isso ao estacionar o carro já avisei a meu filho que tomasse banho enquanto eu organizava o café a fim de não perdermos tempo na nossa subida para casa.

Banho e café finalizados, fomos para o quarto concluir os preparativos para o evento. Ainda que chovesse, a noite era quente demais para permanecer na sala. Meu filho pegou a caixa de som e seu saxofone, enquanto eu ligava meu notebook e tirava da pasta todos os poemas a serem digitados. Ele era muito bom na música, precisava apenas se sentir mais seguro. Eu o ouvia enquanto dava continuidade a minha infindável digitação de textos. Não está ficando muito bom, acho que não vou me apresentar amanhã, anunciou. Nem pensar, ri com ar de reprovação.

A minha febre ainda não passou. Você se alimentou? Você precisa se alimentar, senão ela não vai passar, mesmo. Meu pai não está em casa, não deixou nada pronto e eu não sei cozinhar, então acho que vou dormir sem comer, mesmo.

Não, não vai. Olhei para todos aqueles papéis embaralhados sobre a cama, pensei na possibilidade de não conseguir concluir o trabalho naquela noite caso eu pausasse o processo de digitação. Pensei no risco que correria em dormir tarde e acordar cedo e ter de comandar um grande evento que exigiria de mim muita energia e disposição. O relógio já apontava 21h, e não havia sequer previsão de quando eu terminaria aquilo que mal começara a fazer. Mas eu sabia o que fazer. Saltei da cama e vesti uma camisa. Sugeri que meu filho ficasse em casa ensaiando, mas ele optou por me acompanhar. Desci as escadas com pressa e pedi que ele acionasse o GPS, graças a minha dificuldade em me localizar geograficamente.

No trajeto, ri-me de mim mesmo, tentando compreender por que naquele momento eu me preocupava tanto com ele. Por muitos anos ele me fora um desafeto, e eu nunca fiz questão de esconder; sua presença me desagradava, mas suportava apenas por ser irmão de um amigo, ou ainda por termos amizades em comum. Mas era justamente de mim que ele precisava naquela noite, e isso fez minha alma aquecer por dentro, ainda que o orgulho permanecesse como adversário.

Não era dele que o senhor não gostava? Perguntou meu filho ao revelar-lhe para quem eu entregaria a sopa quentinha guardada no potinho que eu conduzia para o carro. Pelo visto, minha ojeriza pelo jovem era até mais pública do que eu tinha conhecimento. Respondi-lhe com um sorriso e desconversei ligando o som do automóvel para distrai-lo com minha cantoria desafinada.

Saindo do carro, olhei para o seu condomínio portão adentro e logo o vi a distância, ainda que ele fosse baixo e magro. Ele aproximava-se lentamente, os braços cruzados nos quais roçava as próprias mãos indicando estar com frio. Tome, é para você. Sopa de macaxeira, espero que goste, até veio com um pãozinho francês de acompanhamento. Seus passos, que eram lentos, cessaram. De imediato interpretei que ele esperava que eu também me aproximasse, por isso direcionei-me até ele. Toma, e vê se come todo, entreguei-lhe o potinho com a sopa. Olhei-o nos olhos, e percebi que eles estavam vermelhos e marejados.

Abruptamente, ele me abraçou. Abraços não são acontecimentos extraordinários na minha vida, uma vez que o distribuo diuturnamente a meus amigos, mas aquele foi um abraço diferente. Não porque senti em meus braços seu corpo febril; aquele abraço me transmitiu tamanha gratidão que seu “obrigado” em seguida se perdeu no vento que ali atravessava. Comprimi com as mãos sua cabeça a meu peito, que ao fim do gesto continha duas gotinhas proveniente de suas lágrimas. E ali permanecemos em silêncio por alguns instantes. Um silêncio de um abraço, um abraço de gratidão. Em silêncio, uma barreira se quebrava dentro de mim.

E foi assim que saí de casa achando que curaria a doença de um corpo; e retornei com a certeza de que Deus me levou para que eu curasse minha alma.


“Dá de comer a seu inimigo no de dia de sua fome. E no dia de sua sede, dá-lhe de beber. Porque assim amontoarás brasas vivas sobre sua cabeça”. (Romanos 12:20)

 

O abraço

 

Sexta-feira. Essa palavra é um bálsamo para os ouvidos de qualquer profissional, em especial aqueles que trabalham envolvidos na educação de adolescentes. A papelada com a qual eu necessitava lidar diariamente estava espalhada sobre o vidro da minha mesa, de modo que eu não sabia qual parte do trabalho eu deveria finalizar primeiro. Eu e minha mania de causar digressões nos meus processos.

Os pés que gritavam pelo corredor já haviam subido as escadas e já estavam acomodados (ou incomodados?) em suas salas de aula, e eu então poderia raciocinar melhor como proceder diante de tantos afazeres. Sem perceber, os minutos foram passando, e em instantes os alunos retornariam ao pátio a fim de se organizarem para ir embora para suas casas.

A porta da minha sala abriu, mas eu estava deveras concentrado para erguer minha visão de imediato, como de costume. Ouvi meu nome. Pois não? Preciso falar com você, sussurrou a voz ferida. Olhei para ela. A professora me direcionou um olhar pesado, que me esfriou a espinha. Ninguém quer lidar com problemas de gravidade severa ao meio dia de uma sexta-feira de sol castigante. A fome já me roía os ossos, àquela altura, e o cansaço recaía sobre meus ombros e semblante.

Esperei que ela falasse, para não apressar a má notícia que eu já aguardava com minha respiração presa. Vim deixar este celular com você, e espero que você possa conversar com o aluno, ouvi-a recebendo o celular sobre a minha mesa empapelada. Tudo bem, aliviei a respiração. Sendo o problema esse, está tudo bem para mim, pensei. Conversar com alunos sobre uso de celular em sala de aula era o menor dos meus problemas, que não eram poucos. Mas ela continuou. Ele se levantou e caminhou em minha direção, mas não pôs o celular sobre a mesa. Ele simplesmente bateu-o no birô, não apenas com a mão, mas também com a palavras; e essa foi a parte que mais me doeu. Até semana que vem, bom final de semana.

Inesperadamente, doeu em mim também. Fiquei com os dedos entrelaçados sobre os quais apoiava meu queixo, pensativo. Como ele foi capaz de dizer aquilo? E mais do que isso: por que ele? Quando a gente lida com adolescentes, aprende-se de imediato a primeira regra: eles vão nos desapontar. Por mais que meus até então dez anos de carreira me explanassem isso cotidianamente, a vida um dia nos mostra que sempre há uma ferida que ainda pode ser tocada. Ele era uma.

Uma poção amarga de lidar com adolescentes em uma escola é quando eles deixam de ser número e passam a ter nome. Com ele, foi inevitável. Ele era irmão caçula de um amigo muito próximo, então apesar de ser apenas o irmão de meu amigo, ele era irmão de meu amigo. E isso, no nosso íntimo, faz diferença. Ele tinha pai, mãe, irmão e endereço. E eu conhecia tudo isso, de perto. O que quer que eu tivesse de falar, o que quer que eu precisasse fazer, deveria ser dito ou feito ali na escola, sem atravessar os portões. Porém, quando se atravessa sem pedir licença a janela da alma, a conversa é outra, e não há esse profissional que não se abale.

Ao adentrar aquela porta, ela sabia o que estava pedindo, por isso pediu com tanta veemência, porque ela sabia o quanto seria desafiador para mim. Eu precisava matar em meu interior o irmão de um amigo, para encarar a indisciplina de um aluno. Todavia, não era apenas isso. Era a indisciplina de um dos melhores alunos da sala, desses que nasceram e se criaram na escola. Desses que a gente olha com orgulho, e projeta todas as melhores expectativas possíveis para seu futuro profissional e pessoal, que nos inspiram a ter filhos iguais a eles.

Meus devaneios foram interrompidos por uma figura alva, alta e magra, escondida por dentro de seu casaco azul, que surgia atrás do vidro de minha porta pedindo licença. Posso pegar meu celular? Não, pensei. Olhei, não para o relógio, mas para dentro de mim. Em seguida, transferi meu olhar para os olhos castanhos por detrás dos óculos de armação quadrada que esperavam de mim alguma resposta e lhe entreguei o aparelho de capa vermelha. Bom final de semana, nos despedimos. Não era o melhor momento. Todas as emoções e pensamentos que fervilhavam em mim impossibilitavam que eu tivesse o diálogo profissional à altura do papel que eu exercia na instituição. Dispensá-lo foi a melhor decisão que eu poderia ter tomado naquele instante.

Após o almoço, senti o prazer de respirar o silêncio que eu merecia. No pátio, apenas o som do sol e das folhas secas que se espalhavam com o vento que por ali corria. Dentro de mim, uma bagunça incômoda. Segunda-feira conversamos, por que não? Até lá, organizarei meu bom discurso para ensinar a um dos melhores alunos da classe do nono ano a ter bons modos. Senti um misto de amargura, desapontamento e tristeza. Por que ele? Tentei me convencer de que eu esperava demais de um adolescente de quatorze anos, contudo meus argumentos eram insuficientes. É só esperar até segunda e tudo se resolverá. Até segunda. A possibilidade da espera me angustiava, pois eu não conseguiria me decepcionar até segunda-feira, era preciso que o sentimento morresse naquele mesmo dia. E estava decidido, haveria de morrer.

Peguei meu celular no bolso e mandei mensagem para o irmão dele, solicitando o número do indivíduo. Não quis refletir se era antiético, afinal, pelos protocolos escolares, eu deveria ligar para a mãe dele solicitando que ela se fizesse presente com o filho na escola. Aconteceu alguma coisa? Desconversei. Disse que precisava do número dele para falar sobre questões escolares do cotidiano, o que não deixa de ser verdade, ainda que parcialmente. Afinal, aquela situação não fazia parte do cotidiano, ao menos não do dele.

Precisamos conversar. Venha aqui na escola agora pela tarde, se possível. Não me apresentei, pois sabia que meu número estava salvo em seu celular, ainda que o salvamento não fosse recíproco. Estou indo aí agora. Nervosismo e alívio se embaralharam em meu estômago e o aguardei tomado pela seriedade que o momento exigia. Não tardou que ele ressurgisse à minha porta.

Sente-se. Não posso dizer ao certo o que ele sentiu naquela circunstância, mas não deve ser muito prazeroso receber uma solicitação de comparecimento à escola no turno oposto ao que se estuda para conversar com uma das autoridades máximas em uma sexta-feira. Você me decepcionou. Atirei contra ele essas palavras ao terminar de relatar o motivo da convocação. Seus ombros recaíram-se, junto a seu semblante. Joguei sobre ele todas as minhas expectativas e como elas haviam sido frustradas pela manhã. Espero que ela seja demitida, disparou para um colega ao retornar à carteira. Todavia, ela ouviu, e com nitidez. Você sabe como é difícil para uma profissional ouvir isso de um aluno cuja postura ela admira? Os olhos dele me responderam com silêncio e vermelhidão.

Pode se retirar, disse-lhe com seriedade e firmeza. Ele se levantou. Um sincero pedido de desculpas mudo, envergonhado, escorregou de seus lábios. Aceitei-o. O arrastar de seus chinelos ressoou pela sala vazia, não em direção à porta, em minha direção. Vi surgirem de repente dois braços timidamente entreabertos caminhando lentos até mim, e sem pedir licença eles me abraçaram, um abraço que seu vocabulário limitado de adolescente de quatorze anos não conseguira transmitir segundos atrás. Um abraço de perdão. Ali se ouvia apenas o leve bater das mãos às costas, ainda que ambas as almas conversassem. Sinalizei-lhe com a cabeça que estava tudo bem, e ele aos poucos se afastou. Retirando-se, olhou para trás uma única vez, certamente para se certificar de que eu o perdoara. Antes que a porta se fechasse olhei pela última vez para o aluno que saía, calculando se não havia mais nada que eu deveria dizer para que sua atitude não mais se repetisse. Não havia.

Você vem aqui hoje? Era sábado. Vesti minha bermuda e fui à casa dele a convite de meu amigo jogar videogame. O que se discute no trabalho, não pode sair do trabalho, disse a mim mesmo antes de sair. Talvez eu tivesse sido duro demais. Esquece isso, já está tudo bem. Ao tocar a campainha, uma surpresa. Um garoto alto, alvo e magro abriu a porta, sorriu e me cumprimentou naturalmente com um abraço. Por trás dos óculos de armação quadrada já não se encontrava mais o irmão de meu amigo. Por trás daqueles óculos encontrava-se meu irmão.

 

Até logo

 

A chuva que se derramava contra os vidros da janela do meu quarto me acordou naquele dia. Eram vinte e nove de fevereiro do ano de 2020. As nuvens de chumbo me encararam com profundo pesar quando abri uma frestinha da cortina para verificar qual seria o grau de dificuldade que eu enfrentaria para ir ao trabalho naquele sábado letivo. O céu estava triste, pesado e cinzento. Mas era dia de prova, e para coordenadores não existe segunda chamada, afinal. Levantei-me pouco depois das cinco e meia da manhã, de modo que a tempestade lá fora não me permitia escutar meus próprios passos dentro de casa.

Tentei não pensar demais. Tomei meu banho rápido e gelado de todas as manhãs, comi meu pãozinho com um copo de leite e me apressei para ir à escola. Já eram mais de sete. Tudo naquele dia me fazia pensar: o céu cinzento, o vento afrontoso, as janelas embaçadas, até a enorme aranha caranguejeira que encontrei no corredor, ao descer as escadas. Ela sobreviveria, se não fosse o berreiro do filho do vizinho do 204 que impulsionou o pai a matá-la a chineladas logo que passei por ela.

À porta, a rua pavorosamente alagada. Senti frio, ainda que estivesse agasalhado. A chuva não permitia que eu enxergasse dois metros à frente dos meus olhos, e seria uma piada acreditar que o guarda-chuva florido que fora de mamãe aguentaria a ventania que me aguardava edifício afora. Ainda assim, dei meu corajoso passo de partida e segui até o carro.

A dança das árvores em torno do condomínio localizado no coração de um manguezal, junto ao cinza dos edifícios que se misturava com o céu tenebroso, cujas cores mortas borravam na chuva torrencial que agredia meu para-brisas, provocavam-me a sensação de estar sendo engolido.

As ruas estavam vazias, frias, mórbidas. Não sabia eu se o meu interior coloria o mundo lá fora ou se o mundo lá fora invadia meu interior. A verdade é que naquele dia ambos se misturavam, a ponto de eu não mais saber distinguir o que vinha de dentro ou de fora.

Tive que selecionar as vias que não afundavam para finalmente chegar a meu destino. Iniciei a prova com uma hora de atraso, pois não faltaram ligações e mensagens de estudantes que estavam impossibilitados de chegar ao colégio, e todas elas foram respondidas com a devida compreensão.

Ao sair da escola, fui abraçado pelo calor de meio-dia de um sábado ensolarado. Coisa mais esquisita, pensei. Para onde foi toda aquela tempestade? Acho que o avanço das horas trouxe-a de vez para dentro de mim. Do estacionamento, avistei de longe seu edifício e suspirei um até logo. Apressei-me e cheguei em casa sem dificuldades. Almocei e deitei um pouco. Meu coração ainda estava cinzento. Pedi ao relógio que demorasse a chegar as quatro horas, mas naquele dia ele estava de mal comigo.

Já está vindo, irmão? Ouvi sua voz meio embargada e tive dificuldade de identificar se se tratava de alegria ou tristeza, mas quis acreditar que era uma mistura agridoce de ambas. Num suspiro, saltei da cama, e me organizei para enfrentar a verdade da qual eu fugia. A ansiedade me fez chegar antes. Fui recebido com alegria. Nossos amigos estavam lá. Vó, mãe e irmãos seus também. O salão de festas estava azul como o meio-dia, mas cheio de corações cinzentos como a manhã de chuva. Já eram quatro da tarde. Conversei através do olhar com sua mãe e vó diversas vezes. Sem dizer uma palavra, conseguíamos ler uns aos outros, e isso era muito bom, mas às vezes incômodo. Sentia-me despido, invadido.

Vou ficar lá em cima um pouco, irmão. Disse uma voz engasgada por trás do meu ombro direito. Ainda que eu sempre respeitasse seus momentos de solidão, desta vez eu o afrontei. Subimos juntos, nós três. Eu, você e o silêncio. Ele falava sobre algo ao qual eu não me atentara, pois meu coração trovejava alto demais para ouvi-lo naquela hora. Deitei na sua poltrona, como sempre o fizera. Você, no sofá. Da janela, contemplei o céu alaranjado. Ele tinha som e cor de até logo. Virei o rosto para o centro da sala: eu ainda não estava pronto para encarar essa verdade. Não tardou que nos procurassem. Descemos o elevador com o mesmo silêncio com que o subimos e adentramos o salão. Teu irmão estava te procurando, disse-me Vó. Eu respondi com um sorriso frouxo, e ela compreendeu.

A noite escura e sem nuvem já se apresentara lá fora, enquanto no salão os risos de memórias, petiscos e bebidas frescas coloriam o ambiente. Mas meu coração permanecia cinza, como a chuva torrencial que me acordou às cinco e meia. Olhei para você e reencontrei em sua retina o moleque chato e irreverente que conhecera cinco anos antes. Rimos juntos, com os olhos. Por algum instante eu desejei que o moleque não tivesse crescido. Que ele não precisasse partir. Vó nos olhava de longe, sorrindo. Era como se ela pudesse enxergar minha alma, tal qual uma porta aberta.

À meia noite, nossos amigos partiram para suas casas. Eu e seu amigo grandalhão, não. Era chegada a hora. Prateleiras e gavetas esvaziavam-se ao passo que suas malas se preenchiam. De repente, eu me vi com uma sacola cheia de camisas de super-heróis e três pares de sapato. Tudo seu, elas são a sua cara. Pode levar, riu sua mãe. É sua, irmão, deu-me você uma correntinha dourada, junto ao ‘r’ retroflexo e arrastado que só você poderia me entregar.

Deitei em sua cama e fechei os olhos para  fingir por um segundo que tudo era um sonho ou um pretexto criativo para escrever uma crônica. Irmão, vamos. Você vai comigo ao aeroporto? Acordei atordoado, com todos os que estavam no quarto rindo da situação. Tateei a cama à procura do celular a fim de ver que horas eram e li uma mensagem que me fez chover por dentro.

A madrugada já sussurrava, e sem demora fomos ao aeroporto. No carro, o grandalhão já chuviscava. Eu, completamente cinza. No aeroporto, beijos, abraços e fotografias. Até logo, irmão, dissemos. Sem você, assistimos juntos ao céu negro engolir o avião que alçava voo, como o casaco que você costumava vestir na adolescência e lhe devorava até os joelhos. Sorri um sorriso breve, saudoso. Na volta para casa, o grandalhão chovia escondido voltado para a janela, como aquela manhã de sábado. Soluçava, baixinho, para que ninguém o escutasse. Aquela chuva fria, fina e cinzenta. Aquela chuva de despedida.

Dia das Crianças

Eram sete horas da manhã quando o telefone tocou. Mamãe atendeu. Era Papai. Arrume-se, seu pai está chegando. Aquele seria um dia especial. Não por ser dia doze de outubro daquele ano de 2002, mas porque o garotinho passaria o dia com o pai. O destino era a espaçosa casa de seu primo, no coração de um povoado situado na cidade vizinha onde moravam. E era Dia das Crianças, e ele passaria com o Papai.

Papai e ele ficaram muitos anos afastados, após o fim do casamento com a Mamãe. O garoto de treze anos, apesar de não mais ser criança (embora sua mentalidade infantil acusasse o contrário), ainda não compreendia porque pai e filho ficaram separados no período compreendido entre seus cinco e onze anos. Durante a infância, indagou algumas vezes a Mamãe e a Vovó, mas elas nunca lhe responderam.

Certa vez, aos oito anos, o telefone tocou. Era cedo da noite. O menino atendeu. Ouviu uma voz de homem no outro lado da linha, que não quis se identificar; do contrário, brincou de jogo da adivinhação. Ele sabia que era Papai, mas ele não quis revelar porque talvez se o fizesse, a ligação se encerraria, pois a brincadeira teria acabado. Por isso ele entrara no jogo durante toda a ligação, com o único intuito de manter Papai ali por perto, ainda que fosse apenas através da sua misteriosa voz.

Ao se lembrar disso, teve uma brilhante ideia após o rápido café da manhã: vou gravar uma fita para o Papai. Assim, ele poderá me escutar assim que quiser, como gostaria de tê-lo escutado naquela ligação surpresa por diversas vezes em sua infância.

A mochila já estava pronta, o banho já estava tomado. É hora de gravar a fita para o Papai. Sentado no chão da sala, o garoto começou a planejar o que falaria para ele. Já sei, pensou. Piadas. O menino era ótimo em contar piadas. Assim, toda vez que Papai estivesse triste, ele ouviria as piadas e riria, e ficaria feliz ouvindo as divertidas anedotas, e a sua voz. E assim o fez. Piada de papagaio? Não, muito manjada. A piada do chinesinho? Não, muito sem vergonha. Já sei, piadas de escola.

- A professora estava na sala e pediu para Joãozinho conjugar o verbo andar. E Joãozinho começou: Eu ando... Tu andas... Ele anda... A professora, vendo que o aluno estava demorando  a responder, apressou: Mais rápido, Joãozinho! Mais rápido! E Joãozinho prontamente continuou: Está bem, professora: Eu corro... Tu corres... Ele corre...

Ao concluir a piada, ele caiu na gargalhada, rolando sozinho no chão da sala. Viu só essa, Papai? Muito boa, não é? E continuou contando todas as piadas que sabia. Exceto a do chinesinho, claro. Ao concluir sua fita surpresa, deitou no piso branco da sala de estar, e pôs-se a lembrar do cheiro gostoso do campo, das brincadeiras com o primo, do jogo de futebol com as crianças do povoado. Que dia maravilhoso! Será o melhor Dia das Crianças de sua vida.

É hora de almoçar, seus irmãos já estão comendo, ouviu Mamãe chamar. Não vai dar, Papai já está chegando.

O relógio apontava na parede do centro da sala meio-dia e vinte e três. Ainda deitado, pôs-se a imaginar o trajeto que Papai faria de sua casa no centro da cidade até a avenida onde ele morava com seus irmãos e a Mamãe. Apostou consigo mesmo que meio-dia e meia o interfone tocaria, e o porteiro avisaria a chegada do Papai, que certamente teria atrasado porque fora comprar seu presente do Dia das Crianças. Foi um gatilho para sua imaginação: o que seria? Um jogo de futebol de botão? Não, já sei. Uma fita de Super Nintendo. Ou seria a bicicleta com que ele tanto sonhava? Ou talvez um skate, ou quem sabe o Jogo da Vida, Banco Imobiliário ou qualquer jogo de tabuleiro para jogar com os amigos do condomínio.

Meio dia e meia, o interfone tocou. O menino saltou e correu para atendê-lo. Meu irmão? Está sim. Vou descer mais tarde, respondeu o irmão. Estou almoçando. Era algum dos amigos do seu irmão mais velho, chamando-o para jogar videogame, provavelmente. O menino voltou para o centro da sala, e sentou em frente ao aparelho de som, segurando a fita que gravou para Papai. Será que dá tempo de gravar mais piadas? Melhor não. A fita ficou tão divertida, é bom evitar fazer qualquer alteração que pudesse estragá-la.

O silêncio do descanso após o almoço passou a incomodar. O sol passeava pelo chão, teto e paredes da sala, mas ele permanecia ali, imóvel. Papai está chegando.

Ali na sala, o telefone tocou. Antes que ele sorrisse, uma voz surgiu logo atrás de si. É para mim, disse sua irmã mais velha. Ainda assim, ele atendeu, eufórico. Sua irmã está? Desapontado, ele repassou o telefone para ela e voltou para perto da fita de Papai. Todos os sábados, às quinze horas, o namorado da irmã ligava para ela. Ligações eram mais baratas aos fins de semana, e eles aproveitavam o horário para conversar aquelas coisas de casais apaixonados que ele ainda era pré-adolescente demais para compreender.

O sol já se despedira da sala quando a irmã desligou o telefone. O garoto permanecera ali, sentado, segurando com carinho a fita cassete preta que gravara contando as piadas engraçadas para o Papai. Mas o riso ali já não existia mais. Ele estava sério, silencioso e pálido como o Sol que já se punha.

Dezessete horas. Mamãe se aproxima. Venha comer, filho, você não almoçou nada. Ele não virá mais. Ao tocar o filho, sentiu-o quieto, tímido. E quente. Ele não virá mais. Estava silencioso, triste e febril. Ele não virá mais. Em seu rosto, não havia mais riso. As piadas já não pareciam ter mais graça. Ele não virá mais. Nas mãos, a fitinha preta, cheia de amor, e riso, e carinho, e esperança, e inocência, e alegria. Ele não virá mais.

O menino guardou a fita no armário da sala, em silêncio. E levantou-se, enfim, atendendo ao pedido de Mamãe. Atravessou o corredor em direção ao quarto, deixando no chão da sala sua mochila cheia de expectativas.

No corredor, mãe e filho se encontraram. Não fique assim não, viu? Em meio ao silêncio, um abraço. Um silêncio fúnebre ao som e à luz do fim daquela tarde de sábado do Dia das Crianças. Um silêncio, desses que sucedem uma partida. Mas naquele dia, ninguém havia partido. Apenas Papai. Papai partiu um coração.

 


Vazio

Coração que se tranca co'a porta entreaberta
E não mais ouve o dedilhar que ainda ecoa
No estalar cego da chave que agora entoa
Essa solidão que ao meu peito então aperta.

Meus pés já não encontram o caminhar dos seus
No deserto corredor onde me erma o passo
E meu braço encontrava seu fraterno abraço
Já caminham solitários vagando ao breu.

A luz vazia e errante já não alumia
Quanto à amada tua que cá outrora estivera
E reinara sobre nós, tão forte, tão sincera,
Refletem no espelho as cores da noite fria.

Meu silêncio adentra o quarto desabitado
De lençóis e risos, mas jamais da lembrança
Saudosa na memória, o amor é minha herança,
Eternizado em nós neste elo tão sagrado.

Castelo de Areia

Brisa de outono, sopro vespertino,
Areia morna, luz baixa do crepúsculo
A solidão desértica me torna minúsculo
Sobre o sal das ondas revela-se um menino.
 
Nome de águia, cabelo de milho,
Mergulhou na areia, pôs as mãos em terra,
Nas areias do tempo, que aos olhos cerra
Modelou-se como barro, de irmão a filho.
 
Corajoso como um rei, num cavalo belo
Surgiu do horizonte, ao Sol alinhado
Um pequeno infante, o meu filho amado
E na areia fina edificou-se um castelo.
 
Majestosas torres, muro resistente ao vento
No âmago de minh’alma o castelo se erigia
Embora em nossas veias mesmo sangue não corria
Os pilares se sustentavam no mais puro sentimento.
 
Noite sem luar, chorava amarga a maré fria
O sal de suas lágrimas ao castelo desmoronava
Nas areias do tempo o seu sonho sucumbia
Análogo ao poeta, que outrora o pai abandonava
E num castelo de areia sonhou ter sido pai um dia.