O espelho - Capítulo 4: O espelho

Silêncio. Novamente silêncio. No recinto, nada ali existia. Não havia móveis. Não havia brinquedos. Não havia insetos. Apenas o garoto.

Apesar de vazio, algo o fascinou como nada o fizera outrora. A parede. Não, não era qualquer parede. Era aquela. Lisa. Fria. Macia. Gostosa de tocar. Mas o que era tão especial nela? Acontece, leitor, que essa parede era a mais bela já vista e sentida por David. Ela era um espelho!

Os olhinhos inocentes cintilavam com o que via. Como aquele lugar ficou maior! Correu. Precisava tocá-lo mais uma vez. E assim o fez. Freou. Espantou-se. David notou que ele não era o único presente naquele lugar. Quem era aquele garoto do outro lado que o observava? Paralisados, os dois se encararam. Desconfiados, se aproximaram cautelosamente. Com as cabeças inclinadas, se fitavam. Talvez o pequenino não entendesse que aquele outro garoto não passava de seu reflexo. Quem sabe, lhe significasse mais que isso. Mas sem dúvida ele o perturbava. E muito. Ele roubou-lhe a identidade. Cada traço de seu corpo. Seus olhinhos, sua boca, seus membros, sua roupa, sua expressão... É, sua expressão. David resolveu desafiá-lo.

Pôs a mão direita em seu rosto. O garoto também. Agilmente, lançou-a para o lado. O garoto também. Assim, pôs-se a movimentar desordenadamente seus braços, mãos e dedos, esperando que o estranho não conseguisse acompanhar sua incrível agilidade. Todavia, ele o acompanhou. Imitou os movimentos de David como se fossem seus. Como se os tivesse criado. Isso era intrigante.

Respiraram fundo. Juntos, deram um passo a frente. Pararam. Foi dado o segundo passo. E a segunda parada. David teve uma idéia. Uma idéia brilhante. Ele possuía algo que seu companheiro não poderia possuir. Seu ioiô! Ele era o único. Quem mais possuiria um ioiô laranja, com os mesmos arranhões e com as mesmas histórias para contar. Surge um sorriso. Um sorriso de grande... Satisfação! Sentiu-se vitorioso e, olhando nos olhos idênticos aos seus, foi enfiando sua mãozinha no bolso. O idêntico também o fazia, mas David sabia que do bolso dele nada sairia. Enganado, garotinho, muito enganado. Seu sorriso foi desaparecendo, à medida que avistava um cordão saindo do bolso de seu companheiro, entre os dedos. E lá estava o ioiô. Laranja. O pequeno não acreditou. Aproximou-se até ficar cara a cara com seu reflexo. No entanto, agora este não o interessava, como antes. Encostou seu brinquedo ao espelho, e os analisou, girando-o aos poucos em sua mão. Cada traço, cada defeito, cada arranhão. Era tamanha a fidelidade das características de um para com o outro.

O menino ficou impressionado a ponto de ficar irritado. Largou seu ioiô no chão e esmurrou o espelho. O seu companheiro também. Tentou mais uma vez. E outras inúmeras. Em vão. Para David, isto soou como uma provocação.

Encostou sua cabeça, ofegante.

Uma mão tocou-lhe suavemente o rosto...

2 comentários:

Matheus disse...

"Um reflexo... Sabe, acho que era isso mesmo que eu parecia, um reflexo. O mundo continuava igual, os carros passandom as pessoas trabalhando, o sol quente brilhando, só eu ja não era a mesma. Estava ali no meio de tudo, existindo sem existir, exatamente como um reflexo.
(Valéria Piassa polizzi - auqela da teoria da estante)
A cada parte perco mais o fôlego!
mas e a mãe?? onde ela esta agora???
se virar um romance e depois um livro... quero fazer o comentario! hauhauahuahuah
ABRAÇO... e sucesso!

Anônimo disse...

Pois bem, finalmente apareceu o tão falado espelho, que dá nome ao conto!

Mas nãããããão!!! Não acredito! Meu lado psicólogo do desenvolvimento falou mais alto aqui... "Talvez o pequenino não entendesse que aquele outro garoto não passava de seu reflexo"... Sério Rafa?! Vamos revisar as aulas de psi do desenvolvimento: em se tratando da capacidade cognitiva de uma criança, durante a fase pré-operatória do desenvolvimento, que tem seu início por volta dos dois anos, adquirimos a habilidade de nos reconhecer em frente a um espelho... Como eu já apreendi dos outros capítulos que o David é inteligente o suficiente para seguir o desenvolvimento normal esperado para os pequenos, eu vou ficar com a tua outra explicação para o caso: "Quem sabe, lhe significasse mais que isso. Ele roubou-lhe a identidade. Cada traço de seu corpo." Aí tudo bem, metaforicamente falando fica bonita a discussão do garoto com aquele que lhe quer roubar até algo que lhe é tão caro: o seu ioiô.

iô iô glu glu yeah yeah! =DD