O espelho - Capítulo 5: A simetria

David caiu para trás, com o susto.

A outra criança sorriu. Poderia ter gargalhado, ou até permanecer impassível. Mas ela sorriu.

O pequenino estranhou o ato e encarou seu reflexo. Havia ali algo estranho. Não diria estranho. Algo diferente. Deparou-se com uma linda garotinha de cabelos dourados. Seus cachinhos deleitavam-se sobre os ombros. Seus olhos brilhavam de tão verdes. Trajava um vestidinho branco, com bordadinhos cor-de-rosa. Admirado, David estendeu a mão e tocou o espelho.

O sorriso da garotinha era puramente encantador.

Com os dedinhos entreabertos, David tentava acariciar-lhe os cachinhos, tocar-lhe a pele rosadinha. Mas era impossível. Talvez não.

A pequenina, sorridente, enfiou a mãozinha delicada em seu bolso. E dali retirou um pequeno ioiô. Douradinho, douradinho. Uma combinação perfeita com seus meigos cachinhos. Há quem dissesse que era feito de ouro maciço, ou de qualquer matéria-prima que riqueza alguma pudesse comprar.

A menina estendeu-lhe a mão, agarrando levemente o brinquedinho. Contudo, David não conseguia alcançá-lo. Estava ali. Encarcerado.

Aos pés da pequenina, havia uma serpente. Amarelada como o sol ao meio-dia. Dançava por entre aqueles pezinhos delicados. David estremeceu. A menina sorriu. Aproximou a mãozinha direita daquele animal tão astuto, que lhe abraçou a mão, e logo se amansou entre seus ombros e pescoço. David foi aos poucos dominando seu asco. O olhar da serpente o deixava... Entorpecido!

Algo curioso acontecia no interior de David. Suava frio. Algo dentro dele o consumia. Profundamente. Sentia como se tudo o que lhe faltava estivesse ali. Do outro lado. Sua face queimava, avermelhando sua pele. Era o desejo. Nada em particular. Apenas o desejo.

Com um sorrisinho brotado no rosto, a pequena pôs as mãos naquela parede gélida e macia. David fez o mesmo. Assim, ficaram-se entreolhando. David. A garotinha. E a serpente.

Uma forte fragrância rompeu o instante. Não se sabia ao certo de onde vinha. Porém, era inegável o quanto ela era extasiante. Brotaram-se afetuosos sorrisos em ambas as faces. De olhos fechados, os dois pequenos selaram um beijo carinhoso. Os lábios tocaram a parede macia, num beijo frio, mas afetuoso. A pureza de ambos se unia de forma intocável. Paixão jamais houvera. Apenas o amor.

Envergonhados, puseram-se a gargalhar juntos, com as mãos nos lábios. David já agarrava novamente seu brinquedinho com a mão esquerda.
A serpente já não estava mais sobre os ombros da menininha. Nem em lugar algum do recinto.

Ouviram-se ruídos do lado de fora. As folhas das árvores balançavam freneticamente. Não parecia ser efeito do vento. E, de fato, não era.

Surpreendentemente, incontáveis corvos se puseram a debater contra as janelas. Berravam e se debatiam com seus olhos amarelados e famintos. As janelas pareciam resistir firmemente. Mas as criaturas não desistiram. Suas garras e bicos afiadíssimos eram armas infalíveis.

A madeira era quebrada aos poucos, lá fora. A luz já invadia novamente o sótão. Os bicos surgiam através da madeira incessantemente dilacerada.

As duas crianças permaneciam ali. Estáticas. Sem retirar em instante algum o sorriso de suas faces.

A nuvem negra de olhar dourado destruiu a janela inteiramente devastando tudo o que lhe vinha ao encontro. O chão, as paredes, as cortinas. Tudo aquilo parecia ausente a eles dois. Coberto o menino por aquela nuvem, o ioiô foi abandonado. Em suas bordas estava escrito seu nome, em letras azul-royal.

De mãos dadas, apoiadas sobre o espelho, os dois não cansavam de se olhar. Nem de sorrir.

David pereceu ali. Frente ao espelho. Devorado impiedosamente por aquelas feras...

4 comentários:

gustavo disse...

Realmente, ficou bem melhor que antes!
Vc coseguiu tornar fantasioso e aceitavel ao mesmo tempo,
de uma forma criativa e empolgante!!!!
vc vai loonge..! acredite!
parabens meu velho!
abraçoo o/

Manuhs Web Watch disse...

Rapah inspiração vc tem de sobra vai longe em...

Gustavo Monteiro disse...

A realidade é relativa e a prova disso são os seus contos!
se isso não for fantastico nao sei mais o que possa ser!

maas, o iô-iô ão era laranja?
se eu estiver errado desculpe...
HAUAHUAHUAA

abraçooo o/

Anônimo disse...

what the hell is going on?!

cadê a mãe do david?! de onde foi que o reflexo dele virou uma guria?! por que os corvos quiseram comê-lo?! mas o mais importante de tudo, que diabos de cor é "azul-royal"?!

mtos questionamentos... provavelmente foi essa a tua intenção com a quebra tão brusca de um conto que em um capítulo larga de mão o estilo verossímil para adentrar o estilo fantástico...

vou até puxar pra ler logo o capítulo 6 pq agora eu quero saber wth is going on! =P