Luíza: Parte 3

...uma menina engasgava-se com um brinquedo. Ela gemia deitada com a respiração acelerada e as mãos na boca.
Heloísa retirou o soro que estava preso no braço da menina, a pôs sentada na cama do quarto e deu alguns tapas nas costas da menina, mas ela não desengasgava. Optou por retirar com suas próprias mãos, e ao fazê-lo sentiu alívio e a criança começou a tossir, golfando um pouco sobre seu colo.
- Calma, filhinha, está tudo bem agora. Respire fundo e me conte o que aconteceu.
- Obrigado, senhora. Deixe eu te tocar. – esticou a garotinha a mão tentando alcançar o rosto da freira.
- Menina, não pode colocar brinquedos na boca, é perigoso.
- Mas ele que caiu. – apontou a jovenzinha para cima, onde havia vários brinquedos pendurados por fios de nylon.
- Mandarei retira-los, certo? Agora está tudo bem.
A inocente ajoelhou-se no leito e pôs-se a tocar a face da carmelita. Sorrindo, esta disse:
- Qual é o seu nome, querida?
- Marta, e o seu?
- Heloísa. Que bonito nome o seu!
- Obrigado. – sorriu a senhora novamente
- Eles ainda estão aí?
- Quem são eles?
- Os meninos que conversavam comigo no quarto.
- Mas não há menino algum por aqui. – olhou Heloísa em sua volta
- Então eles já foram.
- Como eles eram?
- Não posso contar.
- Por quê? Eles eram maus? – fez a freira uma careta engraçada fazendo Marta sorrir.
- Hahaha! Não. Eles não pareciam maus. Eu não posso contar porque eu sou cega. Como saberei como eles são?
Heloísa pegou na mão da criança e pediu para ela segui-la.
- Para onde vamos?
- Vamos à diretoria. Vai ser rápido.
- Mas vó, eu ainda tenho que tomar soro.
- Não se preocupe, não vamos demorar.
A garotinha foi levada nos braços até o quarto da freira, onde adormeceu. A senhora foi à diretoria e pediu que Marta ficasse sobre seus cuidados. Para os diretores não havia razões suficientes para a menina mudar de quarto e ficar sob cuidados especiais. Mas Heloísa insistiu e exigiu que a garota trocasse de cômodo. E assim foi feito; na mesma noite algumas enfermeiras aplicaram novamente o soro em Marta. A menina, entretanto, permaneceu em profundo sono, sem fazer o mínimo sinal de incômodo.
Durante a madrugada Heloísa despertou de seu sono e teve a seguinte surpresa: Marta não estava mais na cama. Imediatamente a carmelita calçou suas sandálias e pôs seu casaco, pois fazia frio, e foi à procura da menina. As luzes das escadas estavam acesas e Heloísa viu uma sombra em sua frente. Ao começar a subir as escadas ouviu passos e a sombra não estava mais em sua frente.
- Tem alguém aí?
Ouviu-se, afastando-se, uma risada semelhante à de uma criança.
- Marta? Sou eu! Vim te buscar! O que fazes acordada, menina?
O silêncio predominou, o que assustou um pouco a freira.
- Quem está aí? Vamos, responda!
Não se escutou resposta. Ao chegar ao andar acima encontrou apenas um corredor e várias portas. No final daquele se encontrava Marta e Allan correndo às risadas. Heloísa suspirou aliviada.
- Meninos... Vão dormir! Vocês sabem que é proibido meninos e meninas se misturarem. Se a Irmã Laura vir vocês dois juntos teremos problemas. Allan, como conseguiu passar para o lado que as meninas ficam? Ah, aquela Zélia deve estar dormindo em serviço. Coitada dela se a Irmã Laura descobrir que vocês estão juntos... Venham! Vocês têm que descansar. – eles não lhe davam a mínima atenção – Marta? Allan? Estão me ouvindo?
Heloísa apressou os passos, mas tropeçou e caiu no chão; havia um crucifixo preso dentre dois pisos. Ela pacificamente tirou o pequeno cordão que prendera em sua perna direita. Ao levantar-se viu as paredes do corredor rabiscadas, onde havia a frase “Reze por ela e por você também” em vários idiomas. A senhora caminhava e as frases formavam-se ao lado dela a cada passo que ela desse. Lentamente as paredes se afastaram e inúmeras imagens formavam-se perante a carmelita: uma garota ouvia música dentro de um carro, duas freiras se beijavam, várias crianças, sejam brancas ou negras, meninos ou meninas, corriam e brincavam de roda, um jovem e uma jovem namoravam debaixo de uma árvore, um rapaz e uma moça transavam, uma senhorita grávida sorria... Todas essas imagens formavam-se concomitantemente, causando dor de cabeça em Heloísa, fazendo-a fechar os olhos e gritar. Ao abrir os olhos viu que tudo voltara ao normal e as crianças estavam caídas no chão. A freira foi apanhá-las. Os dois tremiam com o frio e estavam de olhos fechados. Heloísa, ao tocá-los, os acordou.
- Vó! Que bom que estás aqui! O que fazemos aqui? Me leve para o quarto, por favor. Estou com frio, com medo! – gemeu Allan
- Vou levá-los daqui. Não tenha medo, vovó está com vocês.
- Quem é esta, vó? Nunca tinha visto uma menina de perto por aqui. – sorriu o menino, este tentando tocar o rosto de Marta com as mãos. – Me deixe tocá-la
Heloísa o colocou ao lado da garotinha. Allan alisava o rosto de Marta com os olhos brilhantes. A carmelita não conteve a emoção e derramou aos poucos algumas lágrimas. O garoto cantava baixinho:
- Menininha, menininha, você é tão bonitinha. Venha ser minha amiguinha! Vai ser legal. Brincaremos o dia inteiro. Brincaremos, brincaremos sem parar. Brincaremos, brincaremos até cansar e cantaremos até o sol raiar...
- Vamos. Vou deixar vocês nesse quarto. – apontou Heloísa para o quarto 056
Ela pôs os dois cuidadosamente numa cama de casal que havia no quarto. Pensou: “Cama de casal? Num convento?”. Pôs-se a observar o cômodo. Havia um extenso guarda-roupa que possuía vestes femininas e masculinas. Tinha também uma cômoda, e sobre esta haviam vários porta-retratos. Eram sete: no primeiro havia uma foto e um bebê, no segundo de uma menina de aproximadamente seis anos, no terceiro uma jovem de treze, no quarto uma moça de dezessete com o namorado, no quinto uma senhorita e seu marido no seu casamento, no sexto uma mulher grávida e por último uma senhora sentada numa cadeira de balanço sorrindo com seus netos. Todas as fotos mostravam momentos da vida de uma pessoa em ordem crescente. O que mais despertou a atenção de Heloísa foi que o indivíduo dos retratos era Luíza. Mas ela lembrou que a jovem morreu aos treze anos, como poderia ter casado, tido filhos e netos?
- Não encontrou o que queria, Heloísa? - soou uma voz feminina em seus ouvidos...

2 comentários:

Fernando Almeida disse...

QUE SAFADO!!! VOCÊ DISSE QE SÓ IRIA TER 2 PARTES, DEPOIS SOMENTE 3, E AGORA VAI TER A QUARTA OU QUINTA PARTE.

Você é mauvado com os outros, menino mau

Dimi disse...

Hey...
Daond vc tirou a ideia desse conto??
^^,