
Algum dia me disseste
Sem mover teus lábios
Tudo o que eu precisava sentir
Para sorrir novamente.
Dias e noites voavam
Ao som de tua voz
E sobre as asas do tempo
Eu viajava em teu olhar.
Risos e prantos...
Vivenciamos ao som do luar
Deitados na areia
Sentindo à pele a brisa do mar.
Indo e vindo pelas nuvens
Te encontrei em sonhos
Em que trajavas tua pureza
E descalça me abraçavas.
A luz que toca os teus lábios
Desliza sobre teu corpo
Dançando sobre tuas curvas
Escorregando sobre teus braços.
Nada a ti se compara
Musa que ri e chora
Deusa de carne e osso
Dona da minha aurora.
As tuas mãos...
Quero sempre tocá-las
Com teus pés...
Quero sempre caminhar
Cair contigo,
Levantar-me contigo
Sorrir contigo,
Chorar contigo,
Ver o dia nascer e a noite cair
E poder ter a certeza
Que jamais verei você partir.
Musa platônica
A. de Lima | 19:39 | | 4 comentários
Beleza imortal
A. de Lima | 18:35 | | 4 comentários

Quem és tu,
Que montada em teu cavalo me observa
E fitando-me com teu olhar me paralisa
Fazendo-me transpirar e viajar
Pelo mais distante infinito?
Quem és tu, senhorita,
Que com apenas teu caminhar
Amedronta a todos os mortais
Que rezam pela sua ausência
Mas sabem que um dia tu haverás de chegar?
Quem és tu, bela dama,
Que cavalgando pelo além
Assiste toda a desgraça dos miseráveis
E com um golpe de misericórdia
Livra-os de todo o sofrimento?
Quem és tu, guerreira,
Que com tua espada e teu cavalo
Liberta os infelizes das dores vitais
Cantando a mais antiga das canções
A mais antiga e poderosa canção
Que nos dá a graça de um sono eterno?
Apenas sei que és o segredo da vida
Porque sem ti ela não existiria
Nem sentido algum ela teria.
E que teu tenebroso olhar
Frio e misterioso
É resultado dos infinitos anos de solidão
Em que esteve presente entre os vivos,
Em que foste a rainha dos mortos.
Serena
A. de Lima | 14:46 | | 1 comentários

Eu conheço teu olhar
Solitário e vago no infinito
Teus olhos azuis vidram em mim
Como se eu fosse apenas uma fantasia.
Tuas mãos... Pálidas e macias
Gélidas elas me tocam
Silenciosamente
Como se eu fosse apenas uma fantasia.
Teu perfume jamais eu esquecerei
Mais suave e doce que um paraíso de rosas...
Rosas agora e eternamente murchas
Murchas por sede de sentimento.
Nunca me disseste
Ao menos meias verdades
Tua ausência me fere, me esmaga no chão
Sem dó nem piedade você sorri
E friamente se despede.
Como se eu fosse apenas uma fantasia.
Como se eu fosse apenas uma pequena fantasia.
Como se eu fosse tua única fantasia.
Como se eu fosse tua mais distante fantasia.
Quando na verdade
Sou teus sentidos, pensamentos e emoções
Vividos num cemitério
De pequenas fantasias.
Sem surpresas
A. de Lima | 18:39 | | 2 comentários

Um coração
Que se enche como um aterro sanitário
Um trabalho que te mata lentamente
Feridas que não cicatrizam.
Você parece
Tão cansado, infeliz.
Derrube o governo!
Eles não, eles não falam por nós.
Levarei uma vida tranqüila
Um punhado
De monóxido de carbono.
Sem alarmes nem surpresas,
Sem alarmes nem surpresas,
Silêncio! Silêncio!
Essa é minha dor fatigante final,
Meu último suspiro.
Sem alarmes nem surpresas,
Sem alarmes nem surpresas,
Por favor.
Uma casa tão linda!
Um jardim tão belo!
Sem alarmes nem surpresas (leve-me daqui)
Sem alarmes nem surpresas (leve-me daqui)
Se alarmes nem surpresas, por favor.
por Thomas Yorke (RadioHead)
Metamorfose constante
A. de Lima | 19:01 | | 2 comentários

Ilusões quebradas...
Metamorfose constante...
Não és mais a mesma.
Mudança traiçoeira...
Conseguiste facilmente mudar
Apenas lamento
Por que sei que não voltarás
Não sei por que queres só sangrar
Se não sabes o que é o vermelho
Grita e chora lágrimas de vidro
Em frente a teu espelho.
Por que tens essa angústia dolorosa
Se não queres se libertar?
Por que viver é tão ruim assim
Se um dia tudo vai acabar?
Por que derramar tantas lágrimas
Se todo sofrimento é em vão?
Nasceste logo morrerás mais tarde.
Descontrolada por natureza
Corroída por falsas ilusões,
Entre as meias verdades e as contradições;
Surpresa alguma...
Nas entrelinhas da realidade
És trancada por todos dentro de porões
Não sei por que queres só odiar
Se nunca provou do amor
Enfia facas dentro de seus punhos
Mas você nunca sentiu dor.
Retrato falado
A. de Lima | 13:45 | | 2 comentários

Você vive entre muralhas
Mas ao serem derrubadas elas se reerguem
Você senta aborrecida
Chora e vocifera
Você é tão linda
De pé ou de joelhos
Desinfetada
E ansiosa por aprazer
Às vezes você se aborrece
Às vezes você se arde
Deus abençoou sua alma
Mas quando Ele lhe estende a mão
Você já partiu
Ao contrário de nosso pai
Você vive mudando
Cada vez que você deita e chora
Isso me destrói
Tento me controlar
Mas isso me destrói
Você ajuda as pessoas
E elas tentam lhe passar pra trás
E para se acalmar
Você senta e escreve
Adaptação de Sulk, música do Radiohead, em homenagem a minha irmã.
Luíza: Parte 4 (Final)
A. de Lima | 14:39 | | 3 comentários
A freira olhou para cima do guarda-roupa e assustou-se: Era Luíza. Mas não era apenas uma, eram quatro “Luízas”: uma recém nascida, outra pequenina de apenas quatro anos, outra com um terço nas mãos, esta com treze anos, e a última era Luíza depois de morta, pálida, com os cabelos em frente a seu rosto e um crucifixo em seu pescoço.
- Quem são vocês? O que querem?
- Somos o nascimento, a infância, a adolescência e a morte. – disse a quarta Luíza
As três primeiras imagens desapareceram e a última prosseguiu:
- Esqueceu de mim, vovó? Há menos de um ano você dizia que me amava como amaria uma filha e que nunca me esqueceria. Pelo jeito você mentiu.
- Não estou entendendo. Diga-me quem és, por favor.
- Sou Luíza, a pequena freira que foi assassinada dentro de um elevador. Não está lembrada? – disse Luíza com uma voz rancorosa
- Filhinha! Você está viva! Desça já daí e me dê um abraço! – lacrimejou Heloísa
- Falsa! Você não me ama! Não deve nem mais lembrar quem sou eu!
- Não diga isso, querida! Você não sabe o quanto eu sofri após a sua morte.
- Duvido. Está tentando me enganar assim como o Lucas me enganou.
- Quem é Lucas?
- Não posso te contar. Se fizer isso nunca descansarei em paz.
- Este homem que você está falando é o assassino, não é? Onde está o desgraçado? Diga-me! – berrou a carmelita
- Não posso.
- Por que ele fez isso?
- Vocês me reprimiram! A culpa é dele e de todos vocês! Se vocês não reprimissem seus ditos filhos meu fim poderia ser outro! – entregou-se a menina ao choro – Eu poderia estar viva...
Ao terminar de falar a garota fez cara de espanto
- Cuide bem de suas crianças! Não deixe que elas terminem iguais a mim! Por favor, dêem a elas o direito de sentir prazer. De realizar seus desejos... Por favor. – chorou mais ainda.
- Por que está dizendo isso?
- Ele está chegando.
- Quem? – desesperou-se Heloísa
- Ele!
Antes que a senhora pudesse obter alguma resposta a imagem da jovem desapareceu e ouviu-se um batido na porta do quarto. Com o nervosismo à flor da pele Heloísa cobriu as crianças com um cobertor. Devagar ela abriu a porta. Estava muito escuro lá fora. Antes que ela saísse do cômodo sentiu o silêncio ser quebrado por uma voz sarcástica:
- O que fazes acordada a essa hora, Heloísa? Está sem sono?
- Quem está aí fora? – apavorou-se a freira
Ninguém respondia. Lentamente a porta era fechada e o pensamento da mulher era tomado pelo medo. Afinal, o que estava acontecendo? Nada parecia se encaixar. Cabisbaixa e pensativa, tudo na cabeça dela parecia embaraçado. Estaria ela ficando louca? Como se não bastasse tudo isso, percebeu-se a presença de uma quarta pessoa no dormitório.
- Parece cansada. Por que não tira um cochilo? Tem medo de este ser o seu último?
- Diga-me apenas quem és e vá embora. – disse a carmelita sem olhar para trás
- Ué! Sou um padre, ora. O que queres mais saber?
- O que você faz aqui?
- O mesmo que você, querida. – sorriu o homem
- Aqui não moram padres! Acha que eu sou idiota o suficiente para cair nessa piada?
- Como és corajosa! Sinto firmeza em sua voz.
- Vá embora! – virou-se ela e o encarou – Mas antes me diga quem é.
- Sou Padre Lucas, e a bela senhora deve ser Heloísa, estou certo?
- Lucas... Lucas... – sussurrou para si mesma
- Não gostou do meu nome?
Com os olhos cheios de ódio a freira deu um tapa na face do homem.
- Por que fez isso? – sorriu ironicamente Lucas
- Assassino! – repetiu ela o ato
- Do que está falando, velha louca? – gargalhou ele sutilmente
- Eu lhe mataria apenas com um olhar, homem desgraçado! Deveria estar ardendo no fogo do inferno, sentindo o calor abrir sua pele aos poucos, seu verme!
- Nossa! Acho que encontrei alguém pior do que eu. – riu ele novamente – Por que tens tanta raiva de mim? Onde está o amor que sentia por mim?
Ao terminar de falar Lucas tomou outra forma: estava um pouco mais velho (aparentava agora cinqüenta anos), cabelos ainda grisalhos, óculos na ponta do nariz, trajava um casaco vermelho e uma calça preta e tinha um livro em mãos.
- Beije-me, meu amor. O nosso último beijo.
- Arthur? É você, meu amado marido? – disse Heloísa com os olhos cheios d’água – Faz quinze anos que você se foi. Por que me deixou aqui sozinha? Por quê?
- Era minha hora, meu doce amor.
- Arthur... Meu amado Arthur! Esperei por tanto tempo... Você nem imagina.
- Agora a barreira do tempo está quebrada, meu bem. Apenas me beije.
Aos poucos as cabeças se aproximavam e os lábios estavam prestes a se tocar. Antes que eles se beijassem ela recuou.
- Não posso. Por mais que eu te ame eu não posso.
-Mas não é isso que você deseja?
- Sim, mas não é isso que eu farei!
Voltando à sua forma original e bastante furioso o padre disse:
- Eu voltarei, fique ciente disso. Quando você menos esperar estarei ao seu lado. E lembre de cuidar de suas crianças...
- Estarei esperando.
Lentamente a imagem do homem sumiu do aposento, causando alívio em Heloísa. Esta saiu do cômodo e o trancou. Desceu as escadas em passo acelerado, levando consigo um punhal que achara no quarto em que estava. Não demorou muito para ela chegar à saída do convento. O que faria fora dali durante a madrugada? Queria chegar à cidade. Estava com pressa, mas sua idade não a deixava correr, portanto foi ela paciente. Demorou quase uma hora para chegar ao lugar desejado, mas ao menos chegou antes do amanhecer. E lá estava seu destino: o prédio mais belo da zona mais rica da cidade. Entrou no edifício sem muitos problemas, afinal, o porteiro dormia na guarita.
Ao chegar frente à porta do elevador respirou fundo, abriu a porta e entrou. Pressionou o botão que indicava o nono andar. Aos poucos imagens se formavam frente a ela: eram Luíza e Lucas. Ele tentava beijá-la, mas a menina o repelia. Devagar ele se aproximava e logo a jovem se rendeu. Antes que o beijo acontecesse Heloísa começou a rezar:
- Pai nosso que estás nos céus, santificado seja o Vosso nome, venha nós ao Vosso reino...
Isso indignou Lucas. A imagem da menina permaneceu parada como uma estátua:
- O que fazes, velha imbecil?
-... Seja feita a Sua vontade...
- Pare com isso agora! O que pensa que está fazendo?
-... Assim na terra como no céu...
Lucas tomou novamente a imagem de Arthur e tentou beijá-la.
- Entregue-se a seu amado, minha bela! Renda-se ao amor...
Com os olhos fechados ela mordia os lábios e, suando frio, continuou orando baixinho:
-... O pão nosso de cada dia nos dai hoje, perdoai as nossas ofensas...
- Ninguém vai ficar sabendo. Eu sei que você ainda me ama, portanto me beije. Vamos, se entregue ao amor!
-... Perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos têm ofendido...
- Não adianta! Tuas orações não vencerão a mim e nem a seus desejos reprimidos.
-... E não nos deixei cair em tentação...
- Isso já está me irritando... – aproximou-se o pároco
Heloísa lambia os lábios e vagarosamente sentia a respiração de Arthur tocar sua face, entretanto, a três centímetros do beijo ele deitou-se bruscamente sobre os ombros dela ,que friamente cochichou no ouvido dele:
-... Mas livrai-nos de todo o mal...
Afastando-se, Lucas, com os olhos arregalados e a boca cheia de sangue, retomava sua verdadeira forma.
- Como pôde fazer isso comigo?
Heloísa cravou no peito dele o punhal que trouxera do convento. Tonto, ele caiu encostado na parede, sujando-a com sangue. Havia um corte profundo em seu peito em forma de cruz.
- Nos vemos no Inferno! - despediu-se ele
-... Amém!
Ao Heloísa dizer esta última palavra o ascensor despencou em altíssima velocidade, chegando rapidamente ao térreo, lançando a senhora porta a fora. A carmelita obviamente desmaiou e só acordou às oito horas da manhã, quando foi socorrida por uma ambulância que fora chamada por pedreiros que seriam responsáveis pela derrubada daquele prédio que estava às ruínas.
Aliviada a carmelita disse a si mesma: “Acabou”
Enquanto era carregada numa maca a freira observou caminhando perto dela a pequena Luíza que sorriu dizendo:
- Obrigado.
Três rapazes carregaram-na para dentro da ambulância, fizeram alguns curativos e a deixaram em casa. Ao chegar lá, perto do meio-dia encontrou Allan, em sua cadeira de rodas, acompanhado de Lúcia. O menino a abraçou e perguntou:
- Posso brincar com ela, vó?
- Pode sim, com quem você quiser.
O menino paraplégico e a pequena cega deram as mãos e foram ao pátio junto à Irmã Lúcia.
A partir daquele momento tudo passou a ser diferente: ao menos por enquanto...
